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As
negociações das Carreiras Médicas: que ensinamentos possíveis?
A
aprovação pela Assembleia da República das Leis n.º 12-A/2008 e 59/2008 veio
introduzir alterações substanciais no contexto laboral da Administração Pública
e obrigar à re
visão e reestruturação
de todas as carreiras profissionais.
Uma
das principais alterações estabelecidas foi a introdução da contratação
colectiva que até aí tinha sido exclusiva do sector privado.
De
Julho de 2008 até final de Setembro de 2009 desenvolveu-se o período decisivo
da negociação das carreiras médicas, naquele que foi o processo mais complexo, difícil
e que constituiu a mais dura prova por que passou a defesa da qualidade e da
dignidade do exercício da profissão médica.
A
análise da situação existente nos meses que antecederam esse período negocial
permitia verificar com clareza que existiam movimentações de alguns sectores
ministeriais e empresariais para procederem à liquidação das carreiras médicas,
procurando reduzir as futuras negociações a um mero e protocolar conjunto de
reuniões “fúnebres”.
Interpretando
com particular pertinência as crescentes preocupações com essas conhecidas
movimentações, foram efectuados contactos, a 16/7/2008, entre o
secretário-geral do SIM, o dirigente do
SIM
colega Jorge Silva e eu, então presidente da FNAM, com o objectivo claro de
serem desenvolvidos todos os esforços de convergência entre as duas
organizações sindicais médicas.
Nesse
mesmo dia foi emitida publicamente uma declaração conjunta que constituiu uma
oportuna antecipação aos propósitos de liquidação das carreiras médicas de
alguns sectores ministeriais, bem espelhados no primeiro projecto negocial
apresentado em 25/07/2008, ou seja, com pouco mais de uma semana de intervalo.
As
primeiras reuniões com o Ministério da Saúde realizaram-se no mês de Setembro
de 2008, estando ainda bem presentes as afirmações peremptórias do então
secretário de estado que conduzia as negociações quanto à recusa em aplicar as
carreiras médicas aos estabelecimentos de saúde EPE.
As
posições assumidas por essa delegação ministerial encaminharam o processo
negocial para profundas clivagens e para uma linha de inevitável
conflitualidade.
Surpreendentemente,
em meados de
Novembro de 2008 fomos informados que essa delegação tinha
sido substituída e que todo o processo negocial seria assumido, a partir daí,
pela Ministra da Saúde e o seu gabinete.
Em
4/12/2008, o Ministério da Saúde enviou às duas organizações sindicais médicas dois
projectos distintos: um sobre o “regime da qualificação médica” e o outro sobre
a “Carreira médica”.
Estes
projectos suscitaram, de imediato, uma enorme surpresa e uma legítima
indignação porque os seus objectivos visavam reduzir a re
visão
das carreiras médicas as já existentes (D.L. n.º 73/90) e transferir para a
responsabilidade da Ordem dos Médicos os aspectos fundamentais em discussão,
todos eles de carácter sindical, incluindo a implementação de um sistema de
recertificação profissional do qual dependeria a manutenção dos graus e
categorias anteriormente adquiridos por concurso público.
A
delegação ministerial, confrontada com esta situação anómala, limitou-se a
afirmar que esse projecto da “qualificação médica” resultava de compromissos
anteriores com a direcção da Ordem dos Médicos.
Face
ao agravamento da situação negocial e à insistência ministerial nos mesmos
propósitos de restringir a re
visão
das carreiras médicas ao D.L. n.º 73/90, o Secretariado Nacional do
SIM e a Comissão Executiva da FNAM efectuaram a
28/01/2009 uma reunião com a presença de todos os seus membros, tendo chegado a
acordo sobre todas as questões reivindicativas e tomado a decisão inédita e
determinante de constituir uma delegação negociadora conjunta, pondo termo às
reuniões separadas até aí existentes.
Com
o empenhado objectivo de procurar alargar esta plataforma de unidade à Ordem
dos Médicos, as duas organizações sindicais desenvolveram esforços para a
realização de uma reunião alargada dos dirigentes das respectivas estruturas
executivas.
Essa
reunião concretizou-se a 10/2/2009, na sede do Conselho Regional Norte da Ordem
dos Médicos, no Porto, e permitiu efectuar uma profunda análise da grave
situação existente e sistematizar as questões fundamentais em causa a nível do
processo negocial.
Durante
a discussão foi curioso ouvir alguns dirigentes da Ordem, os mesmos que semanas
antes tinham recusado qualquer ligação a tal projecto ministerial da
“qualificação médica”, confessar a sua concordância com o respectivo conteúdo.
Apesar
das naturais diferenças de opinião entre vários dos dirigentes presentes houve
uma preocupação dominante em evoluir para a concretização de uma plataforma de
entendimento. E quando estavam já garantidos os pressupostos para uma tomada de
posição pública conjunta, a ex-presidente do Conselho Regional Sul da Ordem e o
ex-bastonário abandonaram a sala de reunião para inviabilizar a assinatura do
comunicado por parte desta estrutura.
As
reuniões negociais com os Ministérios da Saúde, das Finanças e do Trabalho que
se realizaram nos meses de Fevereiro, Março e Abril de 2009 continuaram a não
possibilitar uma efectiva progressão nas matérias em discussão, nem a permitir
encarar qualquer perspectiva de acordo futuro.
Durante
esses meses as reuniões negociais foram marcadas por diversos aspectos
insólitos protagonizados por dois elementos da delegação do Ministério da
Saúde, concretamente: apresentações de novas versões dos documentos que omitiam
as matérias acordadas nas reuniões anteriores; sonegação à Ministra de
documentos e contrapropostas sindicais; desrespeito por compromissos formais
assumidos pela Ministra em torno de diversas questões pontuais; apresentação de
novas versões dos documentos negociais com um conteúdo mais gravoso que as
anteriores; e sistemática ausência de fundamentação das propostas apresentadas.
As
duas organizações sindicais médicas desenvolveram insistentes esforços de
esclarecimento e de sensibilização de outros centros de decisão governamental
envolvidos neste processo, nomeadamente o então Ministro do Trabalho e o
Primeiro-Ministro, a quem enviaram documentos com a fundamentação exaustiva de
todas as suas propostas negociais.
Por
outro lado, foi adoptada uma firme posição de principio quanto à necessidade de
esgotar todos os mecanismos de diálogo e de negociação antes de enveredar por formas
de luta mais radicais, embora tenham sido realizadas largas dezenas de reuniões
sindicais em vários locais do país com o objectivo de informar os médicos e de
auscultar as suas opiniões e propostas de intervenção.
Durante
as reuniões negociais que decorreram durante o mês de Maio de 2009 foi possível
desbloquear um conjunto determinante de matérias, tornando possível a
assinatura de um acordo, a 3/6/2009, sobre os princípios enquadradores das
carreiras médias.
O
conteúdo desse acordo foi aprovado dois dias depois pelo Conselho de Ministros
e enviado para promulgação ao Presidente da República.
Logo
em seguida surgiram alguns dirigentes da Ordem a prestarem declarações públicas
com apelos ao veto presidencial.
Por
coincidência ou não, os prazos legais para a promulgação foram largamente
ultrapassados, obrigando à divulgação, em 17/7/2009, de um comunicado conjunto
das duas organizações sindicais médicas a denunciar esta estranha situação.
Em
30/7/2009, foram promulgados, finalmente, os dois diplomas que vieram a ser
publicados, uns dias depois, com os números 176 e 177/2009.
Em
23/9/2009 foi assinado o acordo relativo à contratação colectiva de trabalho.
Desta
abordagem dos factos fundamentais deste processo negocial, importa sublinhar as
seguintes questões e delas retirar os ensinamentos adequados para o futuro da
intervenção reivindicativa e sindical:
a)
Foram salvaguardadas as carreiras
médicas e alargada a sua aplicação aos EPE e PPP (Parcerias Público-Privadas).
Se tivermos em conta que as propostas
ministeriais apresentadas pela sua delegação inicial pretendiam um só grau,
criar títulos sem qualquer implicação salarial para serem atribuídos pela Ordem
e obrigar a uns exames efectuados por esta estrutura para manterem ou não as
suas categorias obtidas em concursos públicos, podemos aferir melhor o êxito
negocial obtido.
b)
A adequada preparação da intervenção
negocial, a estreita e eficaz articulação entre as duas organizações sindicais
e o trabalho altamente qualificado dos seus advogados, permitiu criar uma
legislação “gémea” para os médicos que já estavam abrangidos pelas carreiras e
para os médicos com contrato individual de trabalho, uniformizando regimes de
trabalho e condições laborais e contratuais.
A concretização da contratação
colectiva “única” para os vários regimes laborais por parte das duas
organizações sindicais médicas abriu o precedente do qual usufruíram todos os
outros sectores profissionais de carreiras especiais da Administração Pública.
c)
Os D.L.s n.º 176 e 177/2009 estabelecem
os princípios enquadradores das novas carreiras médicas. O primeiro para o
universo dos médicos dos EPE e PPP e o segundo para quem se encontrava
abrangido anteriormente pelo D.L. n.º 73/90.
Enquanto os decretos-lei podem ser
revogados unilateralmente por qualquer ministro,
a contratação
colectiva só pode ser alterada por comum acordo entre as duas partes negociais.
Nesse sentido, e para salvaguardar
futuras tentações de qualquer governante, as duas organizações sindicais
exigiram que o conteúdo desses decretos-lei fosse inserido no clausulado da
contratação colectiva.
d)
Sem
a unidade e a estreita articulação operacional entre as duas organizações
sindicais médicas não teria sido possível obter os resultados negociais
indiscutíveis em defesa das carreiras médicas, da qualidade da formação médica
e da dignidade da profissão.
As duas organizações sindicais deram
uma prova de enorme maturidade politica e associativa ao decidirem secundarizar
as suas naturais diferenças de opinião e valorizar todos os aspectos susceptíveis
de melhor assegurarem a defesa efectiva dos interesses sócio-profissionais dos
médicos.
e)
Alguns,
agora, ex-dirigentes da Ordem, na sequência dos resultados das recentes
eleições, tudo fizeram para impedir uma efectiva convergência com as organizações
sindicais.
De entre os então principais dirigentes
da Ordem o único que sempre apoiou os esforços sindicais na concretização de
bons resultados negociais com o Governo na defesa das carreiras foi o actual
bastonário José Manuel Silva.
Os editoriais de alguns números da
revista da Ordem, em particular o de Julho/Agosto de 2009, foram utilizados
para ataques pessoais inqualificáveis, com um baixo nível de terminologia ainda
mais inconcebível quando se trata de uma publicação de uma entidade a quem o
Estado delega funções éticas e deontológicas.
Simultaneamente, foram desencadeadas a
partir das mesmas fontes, campanhas de calúnias pessoais, tentando denegrir o
trabalho negocial de alguns dos elementos da comissão sindical conjunta.
A questão objectiva e insusceptível de
contestação é que os resultados negociais obtidos não envolveram qualquer
cedência de princípios nem nenhuma hipoteca dos interesses dos médicos, além de
que nenhum dos membros da delegação sindical conjunta foi objecto de qualquer
benefício pessoal ou político.
f)
Em
várias reuniões houve colegas que manifestaram a opinião de que não era de
fácil compreensão o facto de se terem obtido tão bons resultados negociais sem
o recurso a greves e a outras formas de luta.
A experiência adquirida mostra que não
podem ser criados “manuais de instruções” para conduzir processos
reivindicativos e negociais.
A grande curiosidade é que os três
diplomas das carreiras médicas até agora existentes foram negociados e objecto
de acordos com três governos de maioria absoluta, o que demonstra uma
indiscutível vitalidade da intervenção sindical médica e uma grande habilidade
negocial dos seus dirigentes.
O primeiro diploma (D.L. n.º 310/82)
foi negociado com o governo PSD/CDS, o segundo (D.L.n.º 73/90) foi com o
governo PSD e o actual com um governo PS.
Enquanto o D.L. n.º 73/90 resultou de
uma negociação efectuada num contexto de intenso conflito com o governo de
então e com a realização de diversas greves, nos outros dois a via da
negociação foi suficiente para assegurar a adequada consagração legal dos
interesses fundamentais dos médicos.
g)
Após
cerca de um ano e meio de estarem concluídas as negociações da contratação
colectiva para os médicos, estes continuam a ser o único sector profissional
inserido em carreira especial da Administração Pública a terem concretizado a
re
visão global da sua carreira,
embora continue pendente a discussão e definição da grelha salarial e cujo
processo terá de ser desbloqueado a muito curto prazo, dado que é a única
matéria que resta.
h)
A
mais recente acção, firme e serena, das duas organizações sindicais médicas em
torno do projecto ministerial da chamada “fidelização” dos médicos internos
mostra que a intervenção reivindicativa está atenta e mantém um elevado sentido
construtivo em defesa da carreira médica e do SNS.
Como dado novo e de extrema importância
são os posicionamento do actual bastonário e dos conselhos regionais da Ordem
recentemente eleitos na criação de uma convergência e articulação com as duas
organizações sindicais médicas, no rigoroso respeito pelas competências legais
de cada uma delas, como se viu já a nível dos médicos internos.
Os tempos que correm, nos planos
nacional e internacional, são preocupantes e colocam graves incertezas quanto
ao futuro.
Os médicos terão de reforçar a sua
participação associativa nas várias estruturas representativas da classe se
quiserem assegurar a efectiva defesa dos seus interesses e da sua dignidade
profissional.
Mário Jorge Neves
Comissão Executiva da FNAM
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