As Reformas, os profissionais e as nomeações do costume
Este artigo de opinião resulta da situação criada
recentemente pela A.R.S. de Lisboa e Vale do Tejo em
torno das suas nomeações de directores para futuros
agrupamentos de centros de saúde.
Desde logo, trata-se de uma situação insólita, tendo em
conta que não existe ainda um diploma legal sobre os
agrupamentos, nem está elaborada “a carta de missão-tipo
para as lideranças” conforme estabelece as Resolução do
Conselho de Ministros de 5/4/2007.
Os
nomes dos nomeados foram divulgados num jornal médico
sem qualquer prévia comunicação formal aos centros de
saúde envolvidos e foi possível verificar que não
existia uma abordagem criteriosa nessas escolhas, dado
que a par de nomes com um percurso profissional e de
gestão anterior de centros de saúde com provas dadas
existiam alguns com um percurso de permanente
conflitualidade e de atitudes persecutórias, bem como
uma clara inadequação para o desempenho de cargos de
gestão.
Entre estes últimos, surgiu um caso de uma pessoa que se
apresentou num centro de saúde limítrofe àquele onde
desempenha as funções de directora, afirmando ter sido
nomeada pela ARS para o cargo de directora do futuro
agrupamento, iniciando imediatamente um comportamento de
ameaças aos vários estratos profissionais e tomando
decisões quanto a obras estruturais nas instalações
desse centro de saúde sem qualquer projecto aprovado e
num imóvel que é propriedade da respectiva câmara
municipal.
Naturalmente, o ambiente criado nessa unidade tem-se
degradado a cada dia que passa e suscita já perspectivas
de pedidos de exoneração por parte de vários médicos de
família.
O
Sindicato dos Médicos da Zona (SMZS/FNAM) procedeu à
rápida denúncia desta situação junto do Ministro da
Saúde através de um fax e divulgou posteriormente o seu
conteúdo.
É
óbvio que a situação existente nos últimos anos a nível
dos Centros de Saúde atingiu, em vários aspectos, níveis
preocupantes e insustentáveis que tornavam
imprescindível uma intervenção estruturada que
salvaguardasse o papel insubstituível e decisivo destas
unidades de saúde.
A
manutenção dessa situação teria sido a garantia da
implosão, a curto prazo, destas unidades e da própria
rede dos cuidados de saúde primários.
Aliás, a percepção de se estar perante um modelo
organizacional já em vias de esgotamento, determinou uma
vasta ofensiva política do anterior ministro Luís Filipe
Pereira com vista à integral privatização dos centros de
saúde e a sua entrega, em saldos, a vários grupos
económicos.
O
facto de nesse período, os médicos de família terem
desenvolvido grandes movimentações reivindicativas que
culminaram numa greve a nível dos Centros de Saúde com
uma adesão esmagadora, foi determinante para que o
actual Governo tivesse percebido que não dispunha, mesmo
com a maioria absoluta, de condições para prosseguir a
política privatizadora e que necessitava de encetar uma
abordagem reformadora com objectivos diferentes.
Em
minha opinião, se os médicos de família não tiverem bem
presente que a reforma em curso não constitui nenhuma
dádiva altruísta do Governo, mas que resulta da
determinação e unidade bem evidenciadas naquela greve,
estão em condições mais fragilizadas para enfrentar os
futuros desafios que, forçosamente, se irão colocar.
Em
qualquer retrospectiva sobre o percurso evolutivo dos
Centros de Saúde, uma das causas mais importantes que
conduziu às actuais dificuldades do seu desempenho
assistencial e preventivo foi o tipo de gestão praticada
por grande parte dos sucessivos nomeados para as
respectivas direcções pelos vários governos.
Se
fosse efectuado um levantamento sobre as razões que
levaram, ao longo dos anos, centenas de médicos de
família a optar pela exoneração da Função Pública
chegaríamos à conclusão que o motivo principal tem sido
este tipo de gestão e a decorrente negação das adequadas
condições de trabalho.
Na
base de critérios clientelares e partidários foram
nomeadas, ao longo de mais de 20 anos, pessoas sem
qualquer preparação para o exercício desses cargos, cuja
acção foi, sobretudo, um forte factor de perturbação
para o normal desempenho institucional.
Uma
das questões mais elementares numa gestão como é o bom
senso esteve sempre ausente e, em contrapartida, foi
aplicada uma cultura autoritária e prepotente, em que os
profissionais são encarados como inimigos internos, sem
direito a pensar e destinados somente a cumprir as
decisões “iluminadas” do director.
Simultaneamente, os directores que se empenharam numa
boa gestão e com alguma participação dos profissionais,
não tiveram o adequado reconhecimento hierárquico e, na
generalidade dos casos, foram encarados como maus
exemplos e oportunamente substituídos.
A
ampla experiência internacional tem demonstrado que uma
reforma que não valoriza os profissionais e que não
garante a sua motivação e envolvimento está condenada ao
fracasso.
Em
1989, um comité de especialistas da OMS, designado para
estudar os sistemas de recursos humanos, divulgou um
relatório onde referiu que (1):
·
Para quer esta gestão se torne eficaz, é necessário que
os administradores tenham, eles mesmos, compreendidos os
objectivos da organização e que estejam dispostos a
realizá-los.
·
Os
profissionais de saúde devem estar identificados com os
objectivos da organização.
·
Apesar de toda a relação comportar sempre, pelo menos,
duas partes é aos administradores que cabe a
responsabilidade essencial da qualidade das relações,
dado que o ambiente de trabalho é, em grande parte,
determinado pelas suas atitudes e comportamentos.
·
Devem existir incentivos para que os profissionais
participem na formulação dos objectivos e não terem
somente o papel de os atingir.
Em
1997, a reunião regional da Organização Panamericana da
Saúde sobre os recursos humanos considerou-os como o
factor crítico da reforma na saúde e referiu, entre
outras, as seguintes conclusões (2):
·
O
desenvolvimento dos recursos humanos assume uma
importância estratégica para alcançar os objectivos e
avançar com êxito nos processos de reforma.
·
Sem
recursos tecnicamente habilitados, que conhecem os
objectivos e estão comprometidos com os processos de
mudança na saúde, não existe futuro para os processos de
reforma.
Bastam estas referências para se verificar o fundamento
das preocupações quanto à posição estratégica dos
profissionais.
Não
é possível sustentar um modelo organizacional durante 25
anos sem a introdução de alterações que lhe permitam
acompanhar as contínuas mudanças que se operam no
contexto social, epidemiológico e económico envolvente,
sendo certo que a não inovação é uma das razões
principais da decadência das organizações.
A
reforma dos cuidados de saúde primários tornou-se
inevitável, colocando-se, então, a questão de saber se
seria feita com os profissionais ou contra eles
A
adesão de um número substancial de profissionais à
constituição das USF demonstrou que existe capital
humano que aspira a formas e métodos de trabalho com
autonomia e maior grau de responsabilização.
Alguns estariam à espera que a resposta dos
profissionais às USF tivesse sido escassa ou até
inexistente para, de imediato, poderem justificar
perante a opinião pública a retoma da política
privatizadora.
Mesmo assim, temos assistido, no processo de instalação
das USF, a diversos casos em que inexplicáveis entraves
burocrático-administrativos se arrastam sem soluções,
denotando uma evidente incapacidade de gestão e uma
falta de empenhamento das estruturas ministeriais
intermédias.
Inclusive, até na questão da dispensa da aprovação
prévia pelo Ministério da Finanças das verbas destinadas
às obras de instalação das USF e a consequente
atribuição desta decisão às ARS, temos verificado
atrasos inadmissíveis e que suscitam legítimas
interrogações quanto ao efectivo empenhamento de algumas
instâncias no êxito da reforma.
Além destes aspectos, há também a salientar o
inaceitável atraso na publicação da portaria relativa
aos incentivos que determinará a passagem ao modelo B
das USF, o que está a constituir um factor de
desmotivação e de grande incomodidade entre os médicos
de família.
A
FNAM, tomando consciência de que estávamos perante um
desafio incontornável e decisivo, desenvolveu um amplo
trabalho de discussão que lhe possibilitou elaborar
sucessivos documentos onde estão expressas as suas
propostas e apreciações devidamente fundamentadas.
Este registo escrito e a sua divulgação garantem que as
suas posições não andam ao sabor das conveniências
momentâneas, que não diz hoje uma coisa e amanhã o seu
contrário ou que exista um discurso dentro dos gabinetes
ministeriais e outro a nível público.
Temos a plena noção de que qualquer reforma ou processo
de mudança encontra sempre obstáculos e resistências no
seu desenvolvimento, deparando-se, até, com problemas
novos que requerem respostas inovadoras.
Relativamente à perspectiva traçada pela Missão para a
Reforma dos Cuidados de Saúde Primários, na sequência da
citada Resolução do Conselho de Ministros, quanto à
definição do perfil técnico adequado para os cargos de
gestão, bem como dos requisitos de competência
profissional, considerámos que tal configurava uma
indispensável mudança de cultura gestionária e uma certa
ruptura com um largo passado de nomeação clientelares e
aparelhísticas.
No
entanto, a política de nomeações já empreendida pela
A.R.S. de Lisboa e Vale do Tejo revela que a reforma
está perante obstáculos adicionais de difícil superação.
As
escolhas dos directores-executivos dos futuros
agrupamentos não são uma questão secundária, antes
assumindo uma importância capital na concretização da
reforma.
Nos
mais variados sectores de actividade está demonstrado
que o modelo organizacional mais perfeito será conduzido
inevitavelmente ao fracasso se for gerido de forma
incompetente.
Da
mesma forma que não se constrói uma democracia sem
democratas, também podemos, por analogia, constatar que
uma reforma só se constrói com lideranças competentes e
imbuídas do espírito reformador.
A
manutenção das nomeações do costume é a negação de um
dos pressupostos da reforma, além de se traduzir, na
prática, numa clara tentativa de condicionar e subverter
quaisquer medidas de definição futura dos requisitos
básicos exigíveis para os cargos dirigentes dos
agrupamentos de centros de saúde.
A
burocracia clientelar nunca esperou que o processo da
reforma chegasse a este ponto e decidiu reagir no factor
crítico dos recursos humanos com a clara convicção de
que é a este nível que poderá obstaculizar a mudança.
Por
mais tentativas que surjam para dissimular a real
gravidade deste esquema de nomeações, é inquestionável
que a reforma está colocada perante uma ameaça que, a
não ser afastada, a comprometerá irremediavelmente.
Em
função da evolução que este processo tiver a curto
prazo, assim existirá a necessidade de proceder a um
reexame do posicionamento a adoptar face ao curso que
alguns pretendem imprimir à reforma.
Mário Jorge Neves
Presidente da FNAM
(1)
- OMS. La gestion des ressources humaines pour la santé.
Rapport dun comité d`experts de l´OMS, Genéve, 1989
(2)
– Organizacion Panamericana de la Salud (OPS/OMS).
Recursos Humanos: factor crítico de la reforma sectorial
(Dic. 1997)