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A Unidade dos Médicos: retórica e
factos
Decidi fazer este artigo de opinião na sequência de ter
recebido no meu domicílio o programa do XIII Congresso
Nacional de Medicina organizado pela Ordem dos Médicos,
e de ter ainda bem presente o conteúdo da “ Carta aberta
do bastonário aos médicos de família”.
Neste programa, está definida uma mesa-redonda sobre o
tema: “ Carreiras Médicas e Gestão de Saúde”.
Partindo do pressuposto de que as Carreiras Médicas são
um assunto eminentemente sindical e que o próprio
Ministério da Saúde já anunciou, há mais de 2 meses, o
seu propósito de iniciar um processo negocial sobre a
revisão global do DL 73/90 (diploma das carreiras
médicas) com as organizações sindicais, não pode deixar
de surpreender a composição decidida pelo Conselho
Nacional Executivo ( CNE ) da Ordem dos Médicos para a
citada mesa-redonda.
A questão que se coloca não diz respeito aos colegas que
aí figuram como intervenientes, mas precisamente quem é
discriminado na participação.
A partir do momento em que é incluído, e bem, o
secretário-geral do SIM, é vergonhoso que o CNE da Ordem
dos Médicos não tenha convidado a FNAM como
interveniente.
E digo o CNE, porque a Ordem dos Médicos não é
estatutariamente uma federação de secções regionais e é
impensável que, tratando-se de um congresso nacional, o
respectivo programa tenha sido decidido por outra
entidade sem ser esse órgão nacional.
Esta atitude sistemática de alguns sectores do CNE
assume maior gravidade quando surge num momento próximo
a algumas declarações “ solenes “ de alguns dos seus
dirigentes quanto ao seu empenhamento na unidade dos
médicos.
Na citada carta-aberta, o bastonário afirma numa das
partes do texto que “ os médicos sabem que privilegiamos
a unidade, pelo que não merecem comentários estes apelos
tribais a grupos dentro dos médicos. Para a Ordem, que a
todos representa, são dignos e por igual merecedores de
crédito todos os médicos, sejam hospitalares, de
Medicina Geral e Familiar ou Saúde Pública, sejam do
Norte, do Centro ou do Sul, sejam seniores ou internos”.
Quando se lê o programa do Congresso, verificamos que
existe um profundo divórcio entre as palavras
panfletárias de circunstância e a prática concreta.
Afinal, todos os médicos são dignos e por igual
merecedores de crédito menos a FNAM e os médicos por ela
representados.
Num momento em que os médicos estão confrontados com
graves ameaças ao seu exercício profissional, com
medidas em curso que se poderão saldar pela destruição
das suas carreiras e da sua autonomia técnico-científica
e ainda com um processo de reformulação global de todas
as carreiras, vínculos e níveis salariais da
Administração Pública, o CNE da Ordem dos Médicos opta,
de forma clara e premeditada, por tomar a iniciativa de
discriminar uma das principais organizações médicas,
assumindo-se como factor de fragmentação e de divisão da
classe.
Desde logo, importa salvaguardar que cada organização
tem, naturalmente, a sua própria autonomia de decisão e
a legitimidade para definir como entender as iniciativas
da sua responsabilidade.
O que está em causa nesta minha abordagem não são estas
questões decorrentes da natural legitimidade estatutária
de cada organização, mas este tipo de práticas “ tribais
“ que, afinal, acabam por ser aplicadas por quem acusa
disso os outros.
Os princípios éticos e de relacionamento institucional
entre as várias organizações médicas não podem ser
confundidos com as naturais diferenças de opinião
resultantes, inclusive, da complexidade das situações
que se colocam em cada momento.
Se a FNAM tivesse também a mesma concepção mesquinha e
tribal, não teria decidido convidar todas as
organizações médicas, sem excepção, para assistirem ao
seu próximo congresso que se realiza a 14 e 15 do
próximo mês de Abril.
Admito que para algumas pessoas é mais reconfortante a
amena discussão dos problemas num ambiente de
unanimidade, mas a unidade faz-se entre diferentes e
implica um esforço efectivo na construção de plataformas
de convergência e de entendimento para melhor assegurar
a defesa dos legítimos interesses dos profissionais,
neste caso os médicos.
Noutra passagem do conteúdo da referida carta-aberta, o
bastonário afirmou que “ todos nós conhecemos a
«síndrome das lágrimas de crocodilo» e já somos
suficientemente crescidos para conhecer estes truques e
as regras do circo “.
Ora, afinal, é isto mesmo que o CNE decidiu aplicar como
princípio de actuação na composição da mesa-redonda em
causa.
Truques e regras de circo que vêm ao encontro das
necessidades políticas do Ministério da Saúde em
procurar fragmentar a indispensável unidade dos médicos
na defesa dos seus legítimos interesses e direitos
socioprofissionais, dado que a ele não lhe irá passar
despercebido que a discriminação de uma organização
médica não pode ter outra leitura que não seja uma
efectiva recusa da Ordem dos Médicos em dar um
contributo importante para a convergência reivindicativa
das várias organizações, num momento em que estão em
causa vários desafios cruciais para toda a classe.
Se este tipo de comportamento político não for objecto
de uma clara oposição da generalidade dos médicos, são
os próprios médicos que estão a entregar ao Poder
político, seja ele qual for, as condições para a sua
liquidação enquanto classe profissional.
Mário Jorge Neves
Presidente do Sindicato dos Médicos da Zona Sul/FNAM
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