

Exma. Sra.
Ministra da Saúde
Av. João Crisóstomo, 9
1049-062
Lisboa
Lisboa, 04 de Junho de 2008
Ref.ª SJ/25/MJ/LB
Exma. Senhora
A criação e posterior desenvolvimento das USF tornaram inevitável a
confrontação com alterações que se produzem a um ritmo tal que deixou de
ter sentido perspectivar a evolução das organizações em termos de ciclos
de mudança passíveis de serem previstos e planeados: a mudança passou a
ser o estado natural.
Sabemos, também, que quaisquer organizações
que queiram ter sucesso têm na Formação um investimento que faz parte
dos seus planos estratégicos recaindo, naturalmente, sobre ela uma
avaliação muito mais rigorosa e crítica no que diz respeito aos
correspondentes retornos efectivos no seu funcionamento.
Esta perspectiva implica transitar de uma abordagem em que o instrumento
e/ou metodologia de base é a Avaliação das Necessidades de Formação e a
definição dos Objectivos Formativos para uma abordagem fundamentada num
Diagnóstico Organizacional e na definição de Objectivos de Mudança
Organizacional, em que a Formação (formal e informal) ocupará,
certamente, um lugar privilegiado.
A FNAM esperava que neste
processo de reforma dos Cuidados de Saúde Primários (CSP), o assunto da
formação fosse abordado de maneira diferente, visto que
nas
“Linhas de Acção Prioritária para o Desenvolvimento dos CSP” ( Janeiro
de 2006) existe uma forte componente da formação e desenvolvimento de
competências ( capº VIII).
A própria Resolução do Conselho de Ministros nº60/2007, que prorrogou o
mandato da estrutura de Missão dos Cuidados de Saúde Primários em dois
anos, incumbe esta estrutura de, em parceria com os serviços e
organismos competentes do Ministério da Saúde, elaborar um plano
estratégico para a gestão do conhecimento dos profissionais inseridos
nas USF.
Por sua vez, as Unidades de
Saúde Familiares (USF), como pequenas equipas multidisciplinares com
autonomia funcional e técnica, estão em posição privilegiada para
poderem criar uma nova abordagem e desenvolverem um plano de formação
coerente para atingirem a
EXCELÊNCIA.
Todavia, o que começamos a verificar é a criação de uma situação
evolutiva em sentido oposto e com o claro desrespeito por essa
Resolução.
A recente divulgação de um curso intitulado “ Programa de
Desenvolvimento de Competências para Gestão de Unidades de Saúde
Familiares”, organizado pela Universidade Católica, coloca inevitáveis
preocupações e suscita diversas interrogações.
Uma das entidades integradas neste “programa” é uma multinacional da
indústria farmacêutica e ao lermos o folheto de divulgação verificamos
que relativamente ao preço do curso está escrito o seguinte:
“O valor da inscrição de cada participante é de 2.000 euros (dois mil
euros) , o qual é integralmente suportado por um grant da Merck Sharp &
Dohme. Este valor inclui o material pedagógico ( livros e outra
documentação de apoio), coffee-breacks, jantar da sessão de encerramento
e lugar de estacionamento”.
Que sentimentos beneméritos e desinteressados podem explicar esta oferta
vultuosa do curso a cada participante?
No que se refere ás matérias do curso existe um módulo designado “
Contabilidade financeira e gestão de tesouraria”.
Ora, estas questões não se inserem na actividade das USF de modelo B,
mas constituem requisitos para os modelos complementares de convenções
ou empresariais, somente quando estiver esgotada a capacidade de
constituição de USF com os actuais profissionais dos Centros de Saúde.
E não são conhecidas as pretensões dessa entidade universitária em
adquirir as chamadas USF convencionadas?
Simultaneamente, é curioso o facto de nesse folheto surgir o patrocínio,
com declarações elogiosas, de um dos titulares da equipa ministerial.
É incompreensível que depois de assistirmos ao longo dos anos a cíclicas
acções de denúncia na comunicação social de situações de potencial
promiscuidade entre profissionais e a indústria farmacêutica, com a sua
utilização política por vários anteriores titulares ministeriais, surja
um curso desta natureza com o patrocínio de um elemento da actual equipa
ministerial e do próprio coordenador da Missão para os Cuidados de Saúde
Primários, cujo cargo está equiparado a director-geral.
E esta situação é ainda mais grave quando é conhecido o facto de o Plano
de Formação dessa Missão se encontrar definido desde o passado mês de
Janeiro em colaboração com a Escola de Gestão do Porto.
Parece depreender-se de toda esta situação que o Ministério da Saúde se
está a demitir das suas funções e responsabilidades e a abrir o caminho
para que a indústria farmacêutica ocupe esse espaço fundamental da
formação, bem como a incentivar a prioridade ao modelo empresarial a
nível dos Cuidados de Saúde Primários.
Assim, entendemos que se torna indispensável e urgente que o Ministério
da Saúde esclareça todos estes factos.
Subscrevemo-nos com os nossos melhores cumprimentos
P’la Comissão Executiva
da FNAM
Mário Jorge dos Santos Neves