

CONFERÊNCIA DE IMPRENSA
A situação agrava-se !!!
O desenvolvimento da
situação existente a nível do sector da saúde e dos problemas que
afectam os médicos colocam sérias apreensões face à ausência de medidas
efectivas que visem promover as soluções adequadas.
Nesse sentido, temos
vindo a assistir à progressiva degradação da situação, tornando-se
indispensável abordar as seguintes questões fundamentais:
1.
A 10.03.2008 efectuamos uma conferência de imprensa onde alertámos para
o progressivo desmoronamento dos serviços públicos de saúde, em
particular para a situação preocupante que atinge os hospitais.
Apesar da gravidade dos factos se tornar óbvia para todos os cidadãos
que contactam com a realidade destas Unidades de Saúde, o Governo
continua a assistir à degradação da situação sem adoptar quaisquer
medidas de solução para os vários problemas há muito identificados.
A acção de grande parte dos seus nomeados para as administrações dos
hospitais tem-se revelado desastrosa e geradora de um clima de
prepotência institucional, conduzindo à desarticulação funcional,
acentuada diminuição da capacidade assistencial, desertificação
profissional e endividamento crescente.
Esta situação torna-se ainda mais grave quando o Governo vem apregoando
os méritos do seu sistema de avaliação do desempenho para os
funcionários públicos e permite a total impunidade de actuação, sem
qualquer prestação de contas e consequente responsabilização, aos seus
nomeados por critérios clientelares e partidários.
Já referimos em diversos momentos que a situação que se vive actualmente
na generalidade dos hospitais públicos é a mais grave das últimas
décadas e resulta da clara falência da importação de caricatos modelos
empresariais para a gestão de unidades públicas de saúde que possuem,
pela sua própria natureza, uma missão social insubstituível.
O cumprimento desta missão social com eficiência e efectividade é, em
termos de gestão pública, o critério decisivo do bom desempenho
institucional, ao contrário do modelo de gestão privada onde esse
critério é o resultado financeiro.
A insistência no modelo EPE mostra que o Governo tenta ignorar a
elucidativa experiência desta política em vários países onde já se
encontra em aplicação há vários anos.
Se não forem adoptadas, a muito curto prazo, medidas dirigidas à
inversão desta situação e à redinamização do funcionamento dos hospitais
públicos, estas unidades ficarão confinadas a uma actividade residual e
acabarão por ser encerradas.
O actual esvaziamento progressivo da sua capacidade de resposta explica,
em grande medida, o grande surto de construção de unidades hospitalares
privadas.
A experiência tem mostrado que a grande maioria das unidades privadas só
tem conseguido subsistir à custa de convenções com o Estado e de
contratos com subsistemas públicos de saúde.
Sendo óbvio que o nível médio de rendimentos da população do nosso país
não permite a viabilização financeira destas unidades privadas, o seu
repentino aumento numérico tem em conta a garantia desses contratos com
o Estado e o previsível desfecho da política em curso.
Perante a gravidade desta situação, a FNAM reafirma a importância da sua
proposta de criação de uma estrutura encarregue de apresentar, com
prazos bem definidos, medidas tendentes à reforma dos hospitais públicos
e à revitalização do seu papel assistencial.
2.
Os acontecimentos verificados nas últimas duas semanas em torno da
reforma dos cuidados de saúde primários impõem alguns esclarecimentos
indispensáveis.
A Missão para os Cuidados de Saúde Primários foi criada por Resolução do
Conselho de Ministros há cerca de dois anos e meio, tendo sido
constituída por profissionais de várias áreas de formação e na base de
convites pessoais.
A FNAM teve, desde o início deste processo, uma clara posição de defesa
de uma reforma dos cuidados de saúde primários, mas mantendo uma
apreciação crítica relativamente a um conjunto de aspectos que
manifestou publicamente diversos momentos e que está registada em
documentos (site FNAM).
Sempre considerámos que a reforma não podia restringir-se à criação das
USF e que existiam outros componentes dos cuidados de saúde primários
que teriam de merecer igualmente a mesma atenção, desde logo a nível dos
médicos de família que não tenham optado pela integração nesse modelo de
organização e funcionamento.
Participámos, como todas as outras organizações sindicais de
profissionais de saúde, nos processos negociais relativos aos diplomas
legais que enquadram o processo de reforma.
Mais recentemente, questionámos a Ministério da Saúde acerca do
inadmissível atraso na implementação do modelo B das USF, tendo em conta
que o respectivo decreto-lei (298/2007) estabeleceu que esta importante
questão teria de estar solucionada no início deste ano.
Este atraso tem motivado um preocupante descrédito no processo de
reforma e é susceptível de se constituir como um factor desmobilizador
na criação de mais USF.
É facilmente compreensível que o bloqueamento na criação de mais USF
públicas constitui um factor determinante para ser justificada a adopção
de medidas de entrega de centros de saúde a grupos económicos por via de
convenções ou de estruturas empresariais.
É neste contexto de paralisia do adequado desenvolvimento do processo de
reforma que surgiram diversos pedidos de demissão de membros da
respectiva Missão.
Tratando-se de elementos pertencentes a vários sectores profissionais
foi surpreendente o aparecimento de algumas notícias, baseadas em fontes
não identificadas, que pretenderam envolver a FNAM nessas decisões.
Esta situação não pode deixar de ser entendida como uma acção
dissimuladora das verdadeiras razões que determinaram as demissões
desses elementos por parte do Ministério da Saúde.
É curioso verificar que estes acontecimentos surgem no preciso momento
em que as ARS iniciaram a constituição dos agrupamentos de centros de
saúde e a correspondente política de nomeações para os cargos de
directores, que suscitaram a circulação de um abaixo-assinado entre
profissionais das USF de repúdio pelas nomeações de cariz
político-partidário.
A FNAM, em documento emitido a 07.07.2007 sobre a reconfiguração dos
centros de saúde, defendeu que as nomeações para estes cargos deveriam
resultar de concursos públicos, na base da apresentação de um
contrato-programa, com a limitação de 2 mandatos de 3 anos.
O Ministério da Saúde tem a obrigação política e ética de esclarecer
publicamente essas razões, bem como de reafirmar o seu inequívoco
empenhamento no cumprimento da Resolução de Conselho de Ministros
emitida o ano passado com o objectivo de prorrogar o mandato da Missão
para os Cuidados de Saúde Primários.
Importa, pois, aferir se a posição política do Ministério da Saúde visa
desenvolver plenamente o processo de constituição de USF públicas ou se
existe uma mudança de objectivos que passa pela prioridade à
implementação de fórmulas empresariais para os Centros de Saúde.
A FNAM reafirma o seu empenho na integral concretização da Reforma dos
Cuidados de Saúde Primários.
3.
A publicação da Lei n.º 12-A/2008, em 27.02., estabeleceu o prazo de 180
dias para a conclusão dos processos negociais de revisão das carreiras
especiais.
A FNAM, logo após a tomada de posse da actual equipa ministerial,
solicitou uma audiência à Ministra da Saúde que veio concretizar-se no
passado dia 01.04..
Nessa reunião transmitimos as nossas preocupações quanto à exiguidade
temporal para concretizar um processo negocial tão complexo e moroso
como é a revisão das carreiras médicas.
A 10.04. foi efectuada uma reunião no Ministério da Saúde para mera
auscultação das propostas reivindicativas já elaboradas pela FNAM e que
se traduziu, face ao comportamento da delegação ministerial, no
aprofundamento do quadro de preocupações em torno deste processo.
Até hoje, o Ministério da Saúde não apresentou qualquer proposta
negocial nem definiu qualquer data para o início das reuniões de
negociação.
Esta situação suscita, naturalmente, fortes apreensões e exige uma
imediata clarificação, nomeadamente o estabelecimento de um calendário
negocial que possibilite a adequada abordagem da revisão das carreiras
médicas, cuja importância é nuclear para o exercício profissional
qualificado.
A FNAM espera que esta morosidade não signifique a tentativa posterior
de impor um número mínimo de reuniões que se traduza numa mera encenação
negocial destinada a consumar a subversão e a própria destruição das
carreiras médicas.
A FNAM reafirma o seu total empenhamento em concretizar uma
revisão do diploma legal que consagra as carreiras médicas, na clara
perspectiva de aperfeiçoar os seus mecanismos de garantia da qualidade
da profissão médica.
Face a qualquer tentativa de subverter e de desvirtuar as carreiras
médicas, a FNAM não hesitará em adoptar as correspondentes medidas
sindicais.
Lisboa, 29.04.2008
A Comissão Executiva da FNAM