FEDERAÇÃO
NACIONAL DOS
MÉDICOS
“Nota
à Comunicação Social”
As “Consultas Abertas” nos Centros de Saúde e Hospitais
Há
cerca de um ano, o Ministro da Saúde desencadeou o processo da chamada
reorganização da rede de urgências, na base de um relatório de uma comissão
técnica por si nomeada.
Nessa
altura, a FNAM tomou uma posição pública sobre este processo tendo alertado para
as suas múltiplas incoerências, bem como para o facto de se estar perante uma
medida tendente a justificar o encerramento arbitrário de serviços.
A
contestação suscitada pelos anúncios de encerramento de vários SAP (Serviços de
Atendimento Permanente) nos Centros de Saúde determinou que o Ministro da Saúde
tivesse adoptado uma posição de suposta conciliação com diversas autarquias,
assinando protocolos cujo conteúdo contem manifestas ilegalidades relativamente
ao enquadramento laboral dos médicos.
Inclusivamente, assumiu compromissos quanto ao funcionamento de consultas
asseguradas por médicos de família em hospitais, quando a legislação em vigor
não permite soluções deste tipo por mera decisão ministerial.
Os
factos têm demonstrado que a posição então assumida pela FNAM teve toda a
pertinência político-sindical e está plenamente
confirmada nas suas apreciações.
Nas
últimas semanas verificou-se um novo surto de encerramento de SAPs e a
consequente colocação de médicos de família em alguns hospitais com a
responsabilidade de garantirem aquilo que é
agora designado por “consultas não programadas para casos agudos do foro
ambulatório”, numa medida de integral replicação
desses serviços de atendimento.
Desde logo, trata-se de mais uma medida sem qualquer suporte legal,
à semelhança do que já aconteceu, há alguns anos atrás, com a criação do chamado
“atendimento complementar” a nível dos Centros de Saúde.
Por outro lado, traduz-se numa acção clara de desregulação integral
da actividade programada dos Centros de Saúde e da Medicina Geral e Familiar,
agravando ainda mais a sua capacidade de resposta às necessidades dos utentes e
liquidando a continuidade e a personalização dos cuidados de saúde prestados.
Independentemente das designações mistificadoras que possam ser
atribuídas a este tipo de serviços, aquilo que constitui a sua essência prática
é a existência de um prolongamento, nas mesmas instalações, do serviço de
urgência hospitalar.
Ao apelidar este serviço como “consulta aberta”, o Ministério da
Saúde e as suas ARS´s pretendem também contornar os limites legais de idade dos
médicos para continuarem a efectuar urgência.
A FNAM tem desenvolvido uma importante acção de defesa da reforma
dos serviços públicos de saúde, em particular dos Cuidados de Saúde Primários (CSP),
mas na perspectiva da sua dinamização e integral rentabilização de todos os
recursos instalados.
Temos vindo repetidamente a alertar para a carência de médicos de
família e para a inadiável necessidade de proceder a um maior investimento
público neste sector da prestação dos cuidados de saúde.
A criação das USF, por si só, e ao contrário das afirmações
ministeriais, não resolvem, nem podem resolver, a carência de efectivos de
médicos de família.
Tal como já alertámos publicamente, a reestruturação da rede das
urgências tinha de ser efectuada a par e passo com o desenvolvimento e
implementação da reforma dos CSP, incluindo nesta a formação de mais médicos de
família, a colocação de outros profissionais de saúde, a reconfiguração dos
Centros de Saúde e a estruturação de um adequado sistema de informação.
Ao contrário destas medidas ministeriais, a questão fundamental que
se torna indispensável assegurar é o atendimento nos Centros de Saúde centrado
na actividade regular, programada e personalizada de cada médico de família e de
cada equipa de saúde.
A não ser observada esta questão, está colocada em causa a reforma
e a requalificação dos CSP.
Apesar das justificações oficiais sobre o encerramento de urgências
hospitalares e de SAPs, as notícias publicadas recentemente referem que, afinal,
se tratam de medidas inseridas no Programa de Estabilidade e Crescimento enviado
pelo Governo á Comissão Europeia e destinadas a cumprir a limitação das despesas
públicas.
Finalmente, importa ainda sublinhar as contradições decorrentes das
medidas preconizadas pela comissão técnica da requalificação das urgências e as
recomendações produzidas sobre este tema pela Missão dos CSP.
Que significado político encerra a opção ministerial que a
evidência dos factos demonstra?
Afinal, são razões técnicas de rentabilização funcional da rede de
urgências ou compromissos políticos de encerramento de serviços para cumprir
imposições da Comissão Europeia?
A FNAM desenvolverá todos os esforços para impedir a implementação
de medidas ilegais e que configurem a subversão do processo de reforma dos CSP.
A Comissão Executiva da FNAM
Lisboa, 7/ 01/2008