FEDERAÇÃO
NACIONAL DOS
MÉDICOS
A COLOCAÇÃO DOS
MÉDICOS INTERNOS: CONTINUAÇÃO DO ESCÂNDALO
Os concursos de ingresso
no Internato Médico 2007 continuam imersos em irregularidades e incorrecções,
facto que preocupa a FNAM e motiva a elaboração deste documento.
Estes concursos, que
decorrem anualmente, e são fundamentais para o ingresso nos ciclos de formação
médica pós-graduada, seguindo-se à licenciatura em Medicina, conduzem à obtenção
de uma especialidade. Um primeiro aviso de abertura de concurso, publicado em
Outubro de 2006, discriminava a existência de dois concursos: um concurso A
destinado aos Internos recém-licenciados, e um concurso B, inicialmente aberto
apenas a Internos que pretendessem mudar de Especialidade, aos quais seriam
disponibilizadas 265 vagas. Verificou-se aqui a primeira incorrecção, uma vez
que o mapa de vagas dos dois concursos não foi publicado aquando da abertura
dos concursos, violando claramente o disposto no Regulamento do Internato.
Posteriormente surgiria
um novo aviso de abertura de concurso, e de acordo com o ponto 1.1 do mesmo,
seria disponibilizado “[…]um número de vagas a determinar em função do número
global de candidatos inscritos[…]”.
Com o novo aviso de
abertura permitiu-se que, para além dos médicos Internos que já se encontravam
numa área de especialização, também os que frequentaram o Ano Comum de 2006
(primeiro ano do Internato Médico) pudessem repetir o exame efectuado meses
antes, no âmbito do concurso de acesso ao Internato Médico 2006.
Cerca de 400 Internos
efectuaram o exame de acesso ao Concurso B, aguardando até há cerca de 2 semanas
pelo mapa de vagas, o qual foi tardiamente publicado. Este mapa de vagas tornado
público conta com 200 vagas, para um total de cerca de 400 Internos.
A FNAM defende que o
número de vagas a concurso seja de facto ponderado em função do número de
candidatos existente.
Somos a favor de que,
por forma a permitir que cada um possa escolher e optar por uma vaga a concurso,
o número de vagas a disponibilizar para a formação específica seja paritário com
o número de candidatos a concurso, cumprindo lato sensu com o disposto no
número 1.1 do segundo aviso de abertura do
concurso.
Defendemos também que a
composição das vagas seja proporcional entre os dois concursos de ingresso no
Internato Médico 2007 A e B, por forma a que se reduzam as disparidades
inerentes à escolha de um concurso ou outro, não beneficiando nem prejudicando
os internos que por opção ou por ausência de alternativa se encontrem num ou no
outro.
Rejeitamos o mapa de
vagas apresentado recentemente, no qual existem apenas 200 vagas para um
total estimado de 400 candidatos, o que se revela manifestamente
insuficiente. Nestas vagas está garantida a proporção de mais de 25% de vagas
para a especialidade de Medicina Geral e Familiar, porém são esquecidas área
importantes, e nas quais o próprio Ministro da Saúde colocou num debate
televisivo recente, o rótulo de “carenciadas” e com necessidade de aumento
da formação de médicos – como é o caso de Pediatria e de Ginecologia e
Obstetrícia, contempladas no total com menos de 4% das vagas a concurso.
Refutamos também com
total firmeza as palavras do Ministro da Saúde quando afirmou taxativamente que,
a partir deste concurso, iriam existir numerus clausus para o acesso
dos jovens médicos ao seu Internato de Especialidade, limitando-se assim a
escolha daqueles que, de forma legítima, pretendem prosseguir a sua formação.
Desta forma, fomenta-se
a existência de jovens médicos sem capacidades diferenciadas, sujeitos a todo o
tipo de precariedade laboral, situação esta que se pode manter nalguns casos
indefinidamente, até que consigam colocação numa especialidade que legitimamente
procuraram.
Fomenta-se também a
existência de desemprego por parte daqueles que, tendo concorrido ao Concurso B,
se encontrem na fase de formação tutelada, a qual corresponde a dois anos
durante os quais os jovens médicos não possuem autonomia para exercer Medicina
fora do âmbito de um programa de Internato de Especialidade. Durante estes dois
anos os jovens médicos praticamente não dispõem de alternativas de emprego na
área à qual dedicaram em média 6 a 8 anos de trabalho e estudo intensivos –
ficarão assim excluídos da formação médica e do mercado de trabalho, caso
a sua classificação não lhes permita escolher uma das 200 vagas publicadas.
Num passado recente,
defenderam-se e criaram-se duas novas Faculdades de Medicina no País,
estimulou-se a formação de licenciados em Medicina para responder às
necessidades do Serviço Nacional de Saúde, existindo cada vez mais um
valiosíssimo capital humano, aliás reconhecido além-fronteiras, que não deve, de
forma alguma, ser desperdiçado.
Além disso, a criação de
sucessivos entraves ao ingresso no Internato de Especialidade é um claro
contra-senso à falta de profissionais de saúde no nosso País. Esta necessidade é
tanto mais iminente quanto o facto de que um número elevado de médicos
que, pela sua idade, actualmente já não exerce funções a nível de Serviços de
Urgência, irá atingir em breve a idade da reforma, prevendo-se assim um
agravamento futuro da actual situação de carência de médicos.
Atendendo ao facto de
que a formação de um médico especialista dura entre 3 a 6 anos, para além
da licenciatura de 6 anos, a forma correcta de salvaguardar esta situação
prender-se-á necessariamente com a disponibilização de mais vagas.
Uma vez mais se salienta
que nada pode explicar o inadmissível arrastamento dos prazos estipulados pelo
próprio Ministério da Saúde, bem como os sucessivos atrasos na publicação e
actualização das listas e candidaturas, factores estes que têm sido causadores
de um clima geral de indefinição e desconfiança em relação a um concurso público
que devia pautar-se pelo maior rigor.
Ainda neste âmbito, nada
pode explicar a existência de um exame de seriação no qual existiram, em 100
perguntas, um total de 6 anuladas e 9 com várias respostas possíveis. É
inadmissível que, existindo dois júris distintos, um para elaborar as perguntas
e outro para as reclamações apresentadas à chave de respostas, se registe um
tal número de incorrecções numa prova tão importante para o futuro profissional
destes jovens médicos.
O Ministério da Saúde
mantém uma atitude de autismo, e tendo já revelado total ignorância no que diz
respeito às regras gerais de concursos públicos, manifesta assim pouco ou nenhum
interesse em resolver a actual situação laboral de centenas de médicos internos
que são parte fundamental das bases de funcionamento do Serviço Nacional de
Saúde.
A FNAM transmite, uma
vez mais, a sua plena solidariedade a estes médicos Internos e está disponível
para intervir no plano reivindicativo e judicial.
Caso o Ministério da
Saúde não assuma, de imediato, o compromisso de garantir a resolução dos
aspectos referidos anteriormente, apelamos aos colegas para desencadearem os
correspondentes processos jurídicos através dos 3 Sindicatos da FNAM (SMN, SMZC
e SMZS), consoante a zona geográfica onde se encontram.
No momento em que
assistimos, por parte do Ministério da Saúde, às frequentes justificações do
encerramento de maternidades e de serviços de urgência com base na falta de
médicos, é escandaloso que seja negado o acesso à especialidade a estes jovens
médicos.
O Ministério da Saúde
tem de proceder ao imediato alargamento do mapa de vagas destes concursos,
contemplando todos os candidatos. Caso contrário, ficará claramente demonstrado
que o seu objectivo real é destruir os serviços públicos de saúde, negar o
acesso dos cidadãos aos cuidados de saúde e criar mão-de-obra médica
indiferenciada que seja contratada a baixo preço para viabilizar os projectos de
grupos económicos privados.
Lisboa, 5 de Março de
2007
A Comissão Executiva da
FNAM