FEDERAÇÃO
NACIONAL DOS
MÉDICOS
Ex.mo Senhor
Primeiro-Ministro
Rua da Imprensa à Estrela, n.º 4
1200-888 Lisboa
Ex.mo Senhor
Primeiro-Ministro:
Recentemente, fomos surpreendidos
por uma entrevista, publicada num jornal diário, do Ministro da Administração
Interna, Dr. António Costa, em que este membro do Governo abordou algumas
eventuais medidas futuras a nível da política de saúde, nomeadamente a
atribuição de competências específicas nesta área às autarquias.
Colocam particular preocupação as
afirmações sobre "... a ideia de que devem ser descentralizadas as
competências em matéria de saúde pública...", bem como as " tarefas de
fiscalização dos delegados de saúde..." .
Nestas declarações foi também
afirmado que as referidas medidas contariam com a "... disposição do
Ministério da Saúde".
Como pode facilmente verificar-se,
a evolução dos conceitos de Saúde Pública nos últimos 40 anos conduziu ao
inequívoco reconhecimento do seu papel insubstituível e à necessidade de uma
intervenção mais estruturada e abrangente, por parte do Estado, nesta área
específica do sector da saúde.
Deste modo, tornou-se inadiável a
criação de uma carreira médica de saúde pública e foi abandonada a concepção
meramente sanitarista de intervenção técnica e profissional.
As declarações produzidas na citada
entrevista assumem uma particular gravidade pelas concepções marcadamente
retrógradas que expressam, ao apresentar como uma das medidas em análise
governamental o retorno ao modelo de "médicos municipais", paradigma do século
XIX.
Não é possível conceber que no
momento actual alguém se possa lembrar de recuperar uma " peça de museu" da
actividade médica para a querer aplicar num país que enfrenta os desafios da
modernização e do desenvolvimento.
Simultaneamente, as mais diversas
instâncias internacionais - desde a OMS à União Europeia - colocam a crucial
importância da Saúde Pública, como especialidade médica, na elevação do nível de
saúde das populações.
Deste modo, tal medida iria
comprometer irremediavelmente toda e qualquer política concertada, a nível
nacional, no âmbito das acções de promoção da saúde e de prevenção das doenças,
bem como os objectivos estabelecidos no Plano Nacional de Saúde.
Como questão adicional e de
importância essencial, iria também colocar um grave problema de isenção e
transparência desta actividade médica: quando são os municípios as entidades
licenciadoras das obras e das actividades, passariam também a deter as funções
de fiscalização, por via da tutela das Autoridades de Saúde.
Ora, as Autoridades de Saúde não
são mais do que o poder de intervenção do Estado na defesa da Saúde Pública que,
deste modo, se autodemitiria das suas responsabilidades nesta área tão delicada.
Consideramos, pois, que se torna
indispensável que seja a Direcção-Geral da Saúde a única entidade a assegurar a
coordenação de todas actividades da Saúde Pública, bem como a tutela das
Autoridades de Saúde, de modo a subordinar esta actividade a objectivos e
transparentes parâmetros de intervenção, sem dependências de circunstancialismos
eleitorais ou de negócios locais.
Quando o Governo decidiu criar uma
Missão para a Reforma dos Cuidados de Saúde Primários, teve certamente bem
presente que este nível de cuidados não inclui só a clínica geral/medicina
familiar, mas também, e em pé de igualdade, a área da Saúde Pública. Aliás,
esta perspectiva tinha como pressuposto assumido a posterior criação de outra
missão específica virada para o reforço da Saúde Pública.
Assim, as medidas anunciadas
constituem uma flagrante contradição com o desenvolvimento destas ideias
nucleares e contrariam frontalmente um dos anunciados objectivos do Programa do
actual Governo: " A promoção da saúde e a Saúde pública têm de regressar à
agenda política da saúde; o apoio a esses programas deve assentar nas
instituições e logísticas da Saúde Pública, negligenciadas durante anos; e
reforçar em meios e competências os Centros Regionais de Saúde Pública".
Finalmente, temos de manifestar a
nossa total estranheza pelo facto de medidas desta importância e com tão
delicadas implicações para o sector da saúde tenham sido anunciadas pelo
Ministro da Administração Interna.
Assim, e face ao exposto, vimos
solicitar a V. Exª a urgente análise e esclarecimento da situação criada com as
citadas declarações, de modo a que não fique em causa a Reforma dos Cuidados
Primários de Saúde nem que a importante componente da Saúde Pública seja
transformada num apêndice de interesses locais.
Com os nossos melhores
cumprimentos.
P'la Comissão Executiva da FNAM

Maria Merlinde Madureira
Lisboa, 29 de Dezembro
de 2006