Os Médicos e a Gestão: que desafios?
A gestão constitui, sem dúvida, uma das
questões fundamentais que se colocam ao desempenho das unidades de saúde e
dos seus profissionais.
Em termos de metodologia de análise, há que
ter em conta o contexto geral da realidade dos serviços, de modo a permitir
a definição de soluções credíveis e adequadamente sustentadas.
Como sabemos, as partes não podem ser
correctamente compreendidas independentemente da sua relação com o todo. E a
gestão é uma das partes de um todo, vasto e cheio de contradições.
Partindo deste princípio, importa ter bem
presente alguns aspectos relativos ao contexto geral, com particular
incidência a nível dos médicos.
Durante várias décadas, os médicos
mantiveram sempre a iniciativa política no âmbito da sua profissão e a nível
das instituições de saúde.
A partir das grandes movimentações médicas
do final da década de 1950 e da publicação, em 1961, do “ Relatório sobre as
Carreiras Médicas”, os médicos influenciaram decisivamente as mudanças e
tornaram-se o “motor” do progresso da saúde no nosso país.
O referido relatório, ao contrário do que
parece pelo título, teve como objectivo fundamental definir um amplo
conjunto de medidas com vista á integral reestruturação do sistema de saúde
então vigente.
Como o nosso país vivia sob um regime
ditatorial onde eram expressamente proibidas discussões sobre questões
políticas, o grupo de médicos que liderou este movimento adoptou a atitude
hábil e inteligente de dissimular o seu verdadeiro alcance com uma aparente
restrição do debate á exigência de criação das carreiras médicas.
Quem já tiver lido este relatório pôde
verificar que a abordagem aí efectuada demonstra a existência de uma íntima
ligação entre o desenvolvimento dos serviços públicos de saúde e a
estruturação das carreiras médicas.
Por outro lado, muitas das suas apreciações
mantêm uma impressionante actualidade.
A título de exemplo, cito as seguintes:
- “ A medicina, como outros ramos das
ciências humanas, tem de adaptar-se ao ritmo do mundo moderno, porque
constitui um dos seus factores de progresso. A adaptação pode obrigar a
introduzir modificações no exercício profissional e exigir até o sacrifício
de hábitos, de costumes e de prerrogativas, mas não exige a abdicação das
normas basilares da ética profissional. E no caso de a exigir, o dever do
médico é opôr-se-lhe, se por outro meio não as puder fazer respeitar”
- “Está dito e redito, mas parece que só
agora começa a entender-se que a execução de qualquer plano de saúde tem de
contar, como dado primordial, com o concurso dos médicos e que hoje, mais do
que nunca, o seu trabalho vale pela qualidade científica e técnica e depende
da organização que o estrutura e integra”.
- “As carreiras não se compreendem
desarticuladas do sistema assistencial, tanto mais que todo ele tem por
ponto de apoio a clínica”.
- “Economiza-se onde devia gastar-se,
gasta-se onde se devia economizar.
Resultado: a assistência é inferior e
caríssima.
Dito noutros termos: a pequena produtividade
dos serviços é um índice do seu fraco desenvolvimento técnico e
administrativo”.
- “Não destruir nada, antes de se ter a
certeza de que pode substituir-se com vantagens”.
Apesar das duras condições de repressão
política do regime fascista, os médicos mantiveram a pressão e as
movimentações reivindicativas conseguindo impor medidas fundamentais.
Em 27 de Abril de 1968, foi publicado o
Decreto nº 48357 que estabeleceu o “Estatuto Hospitalar”, cujo conteúdo
procedeu também á previsão da posterior criação das carreiras profissionais
para administradores, farmacêuticos e médicos.
A título de curiosidade, importa referir que
o seu artigo 35º afirmava que “ em ordem a conseguir a maior eficiência
técnica e social, os estabelecimentos e serviços hospitalares devem
organizar-se e ser administrados em termos de gestão empresarial, garantindo
á colectividade o mínimo custo económico no seu funcionamento”.
Como acabámos de verificar, a questão da
gestão empresarial nos hospitais não é uma descoberta recente.
Em 1971, o então secretário de estado da
saúde, médico, Prof. Dr. Gonçalves Ferreira, publicou o primeiro diploma
específico das carreiras dos profissionais de saúde (Decreto nº 414/71).
Em 1982, já em pleno regime democrático, foi
publicado o primeiro diploma das carreiras médicas, o DL nº 310/82, e em
1990 foi publicado um novo diploma, o DL nº 73/90, que se encontra ainda em
vigor.
De 1974 a 1988, e na sequência da
restauração do regime democrático, os conselhos de administração dos
hospitais eram eleitos pelos respectivos profissionais e encontravam-se numa
situação de clara autonomia face ao Poder político.
Podemos, naturalmente, ter as mais
diferentes opiniões sobre este modelo e até considerar que a eleição, por si
só, não garante a escolha mais competente. No entanto, o modelo que o veio
substituir em 1988, por iniciativa da então ministra Leonor Beleza,
traduziu-se na maior perversão da gestão hospitalar ao introduzir o
princípio do comissariado político e ao transformar os hospitais em
“agências de emprego” para as clientelas do partido no Poder em cada
momento.
Esta constatação não significa que no
universo dos nomeados ao longo dos anos não tenham sempre existido diversos
profissionais competentes e empenhados, mas o princípio da nomeação política
introduziu uma lógica cujas consequências não estão ainda devidamente
avaliadas.
Grande parte dos médicos, ainda que
discordando desta medida, acomodou-se á situação, outros passaram a
acotovelar-se junto dos aparelhos partidários para conseguirem a sua
nomeação, enquanto que outro sector manteve a sua firme oposição, mas
tornou-se descrente de qualquer possibilidade de efectiva melhoria no
funcionamento das suas unidades hospitalares.
É indispensável salvaguardar que estes
posicionamentos são transversais em termos políticos e partidários e não
resultam de arrumações segundo lógicas simplistas.
Assistimos a desempenhos desastrosos de
múltiplas administrações hospitalares, em que os seus elementos nunca foram
responsabilizados, nem objecto de qualquer avaliação da sua gestão.
Esta chocante impunidade tem-se traduzido em
situações de contínua circulação de alguns elementos por vários órgãos de
gestão dos serviços de saúde.
Do ponto de vista mais geral, verificamos
que nos últimos 15 anos se tem desenvolvido uma enorme fragmentação dos
interesses dos médicos, enquanto classe profissional.
Esta crescente multiplicidade de interesses
contraditórios determinou que fossem privilegiados objectivos imediatos de
índole pessoal ou de grupos, que se aprofundasse o desinteresse pela procura
de soluções globais e se agudizasse a indisponibilidade de participação
sócio-profissional e associativa.
Depois da última grande acção reivindicativa
dos médicos que impôs uma negociação vantajosa em torno do DL nº 73/90, tem
sido havido uma contínua degradação da capacidade de mobilização e de
intervenção, permitindo a emergência de vários protagonistas no campo
deixado em aberto.
Por vezes, há quem discuta sobre a invasão
de “terrenos” médicos por este ou aquele sector profissional ou sobre a
hegemonização da gestão por outro sector, mas para além de palavras mais ou
menos inflamadas, qual é a disponibilidade de participação em acções
concretas para inverter o curso de nefastas medidas ou acontecimentos?
Assim sendo, por correctas e oportunas que
sejam as formas de intervenção reivindicativa desencadeadas por uma
organização médica, os resultados práticos não poderão ter grande êxito.
Esta apreciação crítica visa tão somente
manifestar a convicção pessoal que só a partir de uma exigente avaliação das
forças e fraquezas que caracterizam a nossa classe profissional num dado
momento estaremos em condições de traçar objectivos realistas e de nos
mobilizarmos em torno deles.
Fazer apreciações agradáveis, cheias de
lugares-comuns e de conteúdo asséptico é aquilo que mais tem proliferado em
múltiplas iniciativas médicas. O resultado prático destas apreciações é
conduzir ao agravamento do quadro geral e prestar um bom serviço a muitas
entidades menos aos médicos que continuam a ser confrontados com a
degradação de aspectos essenciais da sua profissão e a serem atingidos por
medidas atentatórias da sua dignidade.
Partindo desta realidade, importa considerar
os diferentes desafios que a gestão dos hospitais coloca aos médicos.
Nos últimos 5 anos, as questões relativas á
gestão hospitalar tem suscitado abundantes abordagens da parte de muitos
intervenientes e sido um tema exposto ás mais sofisticadas mistificações
políticas e ideológicas.
Uma dessas mistificações tem sido
desenvolvida em torno da empresarialização e da suposta superioridade da
gestão privada. Se existisse, de facto, essa superioridade, não
assistiríamos todos os dias a falências de empresas, inclusive, de grandes
consórcios multinacionais como a Enron e a WorldCom.
Ainda neste âmbito, somos confrontados com a
sistemática oposição entre a gestão pública e a gestão privada.
Segundo os ideólogos desta campanha, a
gestão pública seria sempre ruinosa, conduziria a graves desperdícios e
traduzir-se-ia por baixos níveis de eficiência. Além disso, o Estado é
sempre um mau gestor, não demonstrando capacidade para rentabilizar os
recursos existentes e gerando uma permanente insatisfação dos cidadãos.
Quanto á gestão privada, a sua própria natureza seria, desde logo, uma
garantia de êxito e um espaço de inovação e de dinamismo.
Ao acompanharmos a experiência recente de
diversos países, podemos verificar facilmente que estes argumentos são
adoptados em todos eles, numa coincidência que vai até á “vírgula”.
De facto, estamos perante um manual
elaborado, num primeiro momento, em meados da década de 1980, pelo Banco
Mundial e que foi objecto de um maior aprofundamento teórico a nível do seu
relatório intitulado “Investir em Saúde”, emitido em 1993. Posteriormente, a
OMC (Organização Mundial do Comércio) e a OCDE, através do Acordo
Multilateral de Investimentos, generalizaram estes conceitos neoliberais com
vista á integral alienação privada dos serviços públicos, nos quais se
incluem, naturalmente, os serviços de saúde.
Desde logo, coloca-se a necessidade de
desmistificar a questão da gestão pública e privada.
Aquilo que as distingue situa-se
exclusivamente ao nível do quadro normativo legal em que são desenvolvidas e
a quem se dirigem os ganhos obtidos. Ou seja, se esses ganhos revertem para
os cidadãos ou para as contas dos accionistas.
O resto são técnicas de gestão que podem ser
aplicadas com maior ou menor competência pelos seus executores directos.
Os argumentos falaciosos de muitos supostos
especialistas da gestão empresarial na saúde, mereceram da parte do Prof.
Theodore Marmor, prestigiado académico americano, na conferência que
realizou em Lisboa, a 9/1/98, as seguintes afirmações:
- “O realismo sobre o que a gestão pode e
não pode fazer livra-nos de aderir ás soluções perigosas oferecidas pelos
inovadores e ajuda-nos a moderar o nosso desapontamento quando verificamos
que uma boa gestão não nos livrou dos males do mundo. Os gurus, quer nos
convençam quer não, levam-nos tempo e energia, enganam uma apreciável
quantidade de ingénuos e desviam o debate dos temas que merecem realmente
atenção”.
- “Os objectivos de qualquer instituição são
múltiplos, contraditórios e instáveis. Seria espantoso que uma só abordagem
pudesse contemplar diferentes objectivos e, muito menos, alterações de
prioridades ao longo do tempo.
Instituições como os hospitais desempenham
múltiplas tarefas, que implicam diferentes estruturas e técnicas
organizacionais, diferentes abordagens de gestão.
Quando um guru diz que ter objectivos
múltiplos é não ter objectivo nenhum, deve ser atirado ao lago mais
próximo”.
Estes modelos de empresarialização foram
inicialmente aplicados por uma equipa de economistas de Chicago, liderada
por Milton Friedman, no Chile, a seguir ao golpe do ditador Pinochet, e
tiveram como objectivo testar a sua viabilidade fora do contexto político e
social dos Estados Unidos.
Após alguns anos, foi iniciada a sua
aplicação a nível europeu, começando pela Grã-Bretanha durante o governo de
Margaret Thatcher.
Em 1988, o primeiro alvo escolhido foram os
cuidados primários com a constituição dos Fundholdings e em 1992 o modelo
PFI ( Private Finance Initiative ) começou a ser aplicado aos hospitais.
No entanto, há que esclarecer que este
modelo foi generalizado a outros serviços públicos como transportes,
escolas, esquadras da polícia e até prisões.
Durante o governo trabalhista de Tony Blair
a designação foi mudada para PPP (Parcerias Público-Privadas ), embora o
modelo seja rigorosamente o mesmo.
Quer o anterior quer o actual governo
britânico desenvolveram uma intensa acção de propaganda em torno desta
medida, apresentando-a como a solução milagrosa para garantir melhores
desempenhos da gestão, maior facilidade de acesso dos cidadãos á saúde,
resolução das listas de espera e qualidade assistencial muito acrescida.
Nos últimos anos, este modelo tem vindo a
ser aplicado em diversos países, apesar dos resultados desastrosos que tem
demonstrado na Grã-Bretanha.
Após cerca de 14 anos de experiência neste
país, verificamos que as PFIs/PPPs agravaram todos os problemas existentes,
foram o pretexto para encerrar dezenas de hospitais públicos e eliminar
largos milhares de camas hospitalares, tornaram mais difícil a
acessibilidade, contribuíram para o rápido aumento das listas de espera e
determinaram o despedimento de dezenas de milhares de profissionais de
saúde, incluindo médicos.
Um relatório britânico publicado há cerca de
3 anos referiu que os 2 países que estavam a comprar, nessa altura, mais
Know-How á Grã-Bretanha a nível das PPPs eram Portugal e a África do Sul.
Em 2002, o actual governo britânico criou um
outro modelo designado “ Foundation Hospitals”.
Trata-se de uma fórmula aplicada aos
hospitais públicos através da introdução do capital social e da assembleia
de accionistas.
Em Portugal, estes modelos de gestão
hospitalar tiveram a sua primeira consagração legal em 1999 com a Resolução
do Conselho de Ministros nº 162/2001, que criou a missão “Parcerias-Saúde”,
e com a Resolução do Conselho de Ministros nº 41/2002, que aplicou as EPEs
ás unidades hospitalares.
Importa recordar que esse governo tinha como
ministro da saúde o Prof. Dr. Correia de Campos.
O governo seguinte, tendo como ministro da
saúde o Dr. Luís Filipe Pereira, fez aprovar na AR a Lei nº 27/2002, que
consagrou a criação dos hospitais SA, muito á imagem e semelhança dos
“Foundation Hospitals”.
Como todos pudemos verificar, estes
hospitais SA, dispondo de maiores facilidades burocrático-administrativas e
financeiras, não conseguiram fazer mais e melhor do que os restantes
hospitais públicos.
Pelo contrário, acumularam dívidas, não
aumentaram a capacidade de resposta aos cidadãos e até o capital social se
foi esfumando para pagamento de despesas correntes.
Com este quadro aqui esboçado de forma
sintética, coloca-se a questão nuclear de procurar soluções alternativas que
não permitam a continuação da manipulação da vida quotidiana das
instituições hospitalares por funcionários dos aparelhos partidários ou por
governos para quem a saúde se resume a uma qualquer mercadoria e para quem
os profissionais de saúde são meros executantes acríticos e acéfalos.
Como sabemos, a saúde, e em particular as
unidades hospitalares, tem conhecido nas últimas décadas uma permanente
revolução tecnológica com a introdução sucessiva de novos e mais
sofisticados meios técnicos, e um desenvolvimento contínuo do conhecimento
científico a nível diagnóstico e terapêutico.
Como a experiência histórica demonstra, de
forma clara e objectiva, todas as revoluções tecnológicas determinaram
sempre uma mudança radical nos métodos de organização da produção e do
trabalho. Ora, de uma maneira geral, esses métodos mantêm-se quase intactos
nos nossos hospitais há várias dezenas de anos.
Como tal, há que implementar medidas que
conduzam á criação de um clima institucional favorável á inovação, que só
pode ser alcançada quando são estimuladas a formação e a aprendizagem
contínuas. Caso contrário, assistiremos á decadência inexorável das unidades
hospitalares.
O Ministério Federal da Saúde do Canadá, há
cerca de 2 anos, definiu aquilo que considera ser a gestão moderna ao
dirigir-se aos seus profissionais de saúde com as seguintes palavras:
- “ A gestão moderna é como um rio
atravessando a paisagem da vossa vida profissional.
Para encontrar a melhor maneira de navegar
neste rio, vós deveis prestar atenção não somente ao rio em si, mas a todo o
seu ambiente envolvente. Isto significa colocar as questões correctas e
integrar os instrumentos de gestão da maneira mais eficaz possível para
atingir os resultados. Como o rio, a gestão moderna representa bem mais do
que um modelo, uma estratégia e um plano de acção. Trata-se de promover uma
cultura de gestão centrada sobre os nossos valores, a nossa missão e os
nossos objectivos, e que aspira á excelência”.
Os hospitais são organizações complexas, com
múltiplos serviços de natureza diferente e aglomerando um elevado número de
profissionais de áreas distintas.
Estando fortemente dependentes de tecnologia
sofisticada, os hospitais estão sujeitos, de forma inevitável, a grandes
mutações e a um elevado grau de incerteza nos resultados.
Os hospitais não podem ser encarados
isoladamente, mas como um elemento, ainda que importante, de um sistema
integrado, o qual inclui os cuidados primários e os cuidados de carácter
social.
Uma questão que se coloca a nível das
unidades hospitalares é a necessidade de existir uma clara definição da sua
missão.
Segundo Federico Tobar, “ a missão é a
contribuição da instituição á sociedade”, constituindo o pilar da
estratégia.
Ainda segundo este autor, a definição da
missão é a mais poderosa ferramenta de gestão que uma organização pode ter.
Primeiro define-se a missão e só depois se pode planificar, desenvolvendo a
sua capacidade para fazer o que deve fazer.
Quantos hospitais no nosso país têm definida
a sua missão?
Neste contexto, existem 2 técnicas de gestão
que importa estarem presentes na perspectiva de desenvolvimento e
modernização dos estabelecimentos públicos hospitalares: a planificação
estratégica/gestão por objectivos e a contratualização.
Estas 2 técnicas conheceram uma maior
divulgação ao serem apresentadas pela propaganda neoliberal como inerentes á
sua cultura económica e gestionária.
A gestão por objectivos, embora tenha sido
inicialmente desenvolvida em diversos sectores industriais, está a ser
objecto de implementação em serviços públicos de saúde de alguns países.
Tratando-se de uma técnica de gestão é
possível proceder á sua aplicação em qualquer sector de produção de serviços
e aproveitar todas as suas potencialidades.
Este tipo de gestão deveria constituir a
referência fundamental do funcionamento dos nossos hospitais. Desde logo,
porque implicaria a adopção de uma medida crucial para estas unidades: á
prévia definição clara da sua missão e objectivos institucionais, no
pressuposto de que os objectivos institucionais é que determinam os
processos a utilizar.
A gestão por objectivos é uma técnica que é
parte substantiva das planificações estratégica e operacional. Além disso,
compromete toda a hierarquia e todos os funcionários, altera totalmente os
conceitos de trabalho rotineiro, é uma gestão mais participativa e
democrática, possibilita maior controlo social porque os seus objectivos
estão definidos e são divulgados, e implica a existência de mecanismos de
avaliação regular.
É de fundamental importância proceder á
desgovernamentalização das nomeações dos cargos de gestão, a começar pelos
conselhos de administração, obedecendo estas a orçamentos-programa baseados
naquilo que cada hospital “deve fazer”.
De acordo com esta perspectiva, os
directores de serviço deveriam ser nomeados em função da apresentação prévia
de um contrato-programa devidamente articulado e hierarquizado com a missão
definida globalmente para o hospital.
No final de cada ano, todas as actividades
do hospital teriam de ser objecto de uma avaliação criteriosa, na base de
parâmetros objectivos e de uma efectiva responsabilização pelos resultados
obtidos.
Assim, sobressai a importância decisiva de
existirem fortes estruturas intermédias de gestão e dotadas de grande
capacidade operacional.
A departamentação adequada dos serviços e
directores de serviço dispondo de meios, de autonomia e de maior
responsabilidade, são aspectos indissociáveis de um clima organizacional
inovador e dinâmico.
No fundo, trata-se de assumir o papel
central da gestão clínica como barreira á intromissão de critérios e métodos
alheios aos objectivos assistenciais aos doentes.
Falta, naturalmente, referir a importância
dos programas da melhoria contínua da qualidade, dado que uma das suas
implicações directas aponta para a permanente adequação da estrutura
organizacional e dos métodos de trabalho aos objectivos definidos.
Finalmente, colocam-se as seguintes
interrogações:
- Os médicos estão dispostos a romper com as
concepções atávicas que imperam na generalidade dos serviços?
- Estão dispostos a assumir maiores
responsabilidades na gestão e inovação dos serviços?
- Estão dispostos a assumir uma avaliação
dos resultados dos seus serviços?
- Estão dispostos a tomar a iniciativa de
serem o “motor” das mudanças?
- Estão dispostos a desenvolverem
movimentações que promovam a gestão clínica e a desgovernamentalização dos
hospitais?
Em minha opinião, a “mãe” de todos os
desafios reside em 2 pilares essenciais: a mobilização dos médicos e a sua
capacidade para estabelecer um programa de mudança.
Sem a assumpção clara e urgente destes
desafios, podemos continuar a lamentar-nos e a exercer o direito á
indignação pelas malfeitorias do Poder político, mas seremos ainda mais
subalternizados e até esmagados pelas lógicas implacáveis dos aparelhos
político-burocráticos.
Há que passar das palavras aos actos e
afirmar a vitalidade do movimento médico.
A FNAM continua empenhada na dinamização de
uma mudança que reforce a autonomia e a independência técnico-científica da
profissão médica, e a qualidade dos cuidados prestados aos cidadãos.
Só com a participação activa da grande
maioria dos médicos é possível impor esta agenda de mudança.
Pela nossa parte, já temos as mangas
arregaçadas para este empreendimento.
Coimbra,
1/4/2006
Mário Jorge
Neves