SINDICALISMO MÉDICO
Desafios e Responsabilidades num contexto de mudança
O
desenvolvimento de uma política de Cuidados de Saúde Primários foi um dos
pilares essenciais para que o nosso sistema de saúde tenha protagonizado uma
espectacular melhoria dos principais indicadores num período de tempo
relativamente curto.
A tomada de
consciência de que a capacidade de resolução da generalidade dos problemas
de saúde deve estar centrada numa adequada e dinâmica política de cuidados
primários, determinou que em 1971, ainda em pleno regime ditatorial, o então
secretário de estado da saúde Prof. Gonçalves Ferreira, tenha já decidido
proceder à criação pontual dos primeiros centros de saúde.
Após a
instauração do regime democrático em 1974, a implementação do serviço médico
à periferia constituiu uma etapa decisiva na posterior estruturação de uma
política de cuidados primários de saúde de âmbito nacional.
Após a
conferência de Alma-Ata realizada em 1978, onde
os cuidados primários de saúde foram definidos como a solução para as
necessidades básicas dos povos nesta área, o nosso país adoptou um conjunto
sequencial de medidas com vista a enfrentar uma situação preocupante que nos
colocava na cauda da Europa.
A criação do
SNS em 1979, a publicação do primeiro diploma legal das carreiras médicas em
1982, a criação da Direcção-Geral dos Cuidados de Saúde Primários em 1983,
foram medidas essenciais que possibilitaram a inversão da situação da saúde
em Portugal.
O diploma
das carreiras médicas (D.L. n.º 310/82, de 03.08) consagrou a medida
inovadora da criação da carreira de clínica geral. Esta medida, também no
plano internacional constituiu uma nova abordagem da medicina geral e
familiar ao defini-la como uma especialidade dotada com graus de progressão
e de diferenciação técnico-científica, à semelhança das restantes
especialidades médicas já existentes.
Na
generalidade dos outros países onde se encontravam em desenvolvimento
modelos de medicina geral e familiar, os respectivos médicos não estavam
inseridos numa carreira técnico-científica, não possuíam qualquer garantia
de progressão salarial e estavam dependentes de esquemas de créditos e de
recertificações da sua actividade profissional,
bem como tinham esta actividade limitada pelos chamados "
orçamentos-clínicos".
Em cerca de
24 anos de existência da carreira de clínica, assistimos à degradação das
condições de trabalho dos profissionais dos Centros de Saúde, à diminuição
dos seus efectivos numéricos e a um progressivo desinvestimento orçamental
nos Cuidados de Saúde Primários.
Simultaneamente, e face à diminuição do número de médicos de família,
verificamos ao longo de sucessivos governos que a abertura anual de vagas
para o internato da especialidade da carreira de clínica geral é amplamente
deficitária, não assegurando, sequer, a indispensável renovação dos
efectivos.
Também
decorrente deste importante facto, foi-se agravando a inversão da relação
numérica entre médicos hospitalares e médicos de família. E esta inversão é
fortemente condicionadora do adequado desempenho de uma política de cuidados
de saúde primários e de medicina familiar.
O aumento do
número de utentes sem médico de família, foi o motivo aproveitado
demagogicamente pelo Poder político nos últimos anos para desencadear um
processo visando aplicar modelos em desenvolvimento em diversos países, cujo
objectivo final se encontra centrado na progressiva privatização dos
serviços públicos de saúde.
A
FNAM tem acompanhado atentamente
a evolução e consequências dessas experiências, de modo a estar alertada
para medidas governamentais que, por mais disfarçadas e envolvidas em
diferentes terminologias, procuram proceder à sua importação para o nosso
país.
A pressão
existente por parte de importantes grupos económicos junto do Poder político
para que lhes sejam entregues importantes segmentos dos nossos serviços
públicos de saúde, é sentida há vários anos.
Explorando
naturais e inevitáveis insatisfações dos cidadãos e utilizando argumentos de
diabolização dos centros de saúde, procuram
obter a concessão destas unidades com o financiamento garantido através dos
dinheiros públicos.
A publicação
do D.L. n.º 60/2003, da autoria do anterior ministro da saúde, Dr. Luís
Filipe Pereira, constituiu a plena consagração das perspectivas
privatizadoras dos Centros de Saúde e um exemplo bem elucidativo daquilo que
estava definido quanto à integral destruição da carreira de clínica geral, à
total precaridade laboral através dos contratos individuais, e à total
subalternização dos médicos de família em favor de gestores oriundos das
clientelas partidárias.
A adesão
esmagadora dos médicos que trabalham nos Centros de Saúde à greve de
contestação a este diploma foi uma resposta inequívoca, reveladora da sua
aguda compreensão daquilo que estava em causa para o seu futuro profissional
e para a saúde dos cidadãos.
A FNAM tem
considerado, desde sempre, que se torna imperioso serem os médicos e as suas
organizações a tomar a iniciativa de procederem à apresentação de propostas
fundamentadas e exequíveis para influenciar decisivamente qualquer processo
de mudança.
Deste modo,
quando do processo de negociação em torno do diploma dos Centros de Saúde de
3.ª Geração (D.L. n.º 157/99), a FNAM desenvolveu empenhados esforços para
que as questões essenciais fossem adequadamente salvaguardadas e que a
medicina geral e familiar não ficasse reduzida a um mero instrumento
mercantil para benefício de interesses económicos alheios aos médicos.
Neste
diploma, que voltou a estar em vigor na sequência da revogação do D.L. n.º
60/2003, está consagrada a constituição de Unidades de Saúde Familiar.
Independentemente do facto de qualquer diploma legal nunca conseguir dar uma
resposta plena à multiplicidade de expectativas e a todos os problemas que
se colocam no funcionamento quotidiano dos serviços, basta uma comparação,
mesmo superficial, para verificarmos existir uma diferença abismal entre os
objectivos destes 2 citados diplomas.
A
constituição da comissão técnica para a reforma dos cuidados de saúde
primários conduziu à elaboração de um relatório que foi submetido a
discussão pública.
A FNAM foi
uma das poucas organizações médicas a emitir uma circunstanciada apreciação
crítica a esse relatório. A posterior criação da “Missão dos Cuidados de
Saúde Primários” surgiu como prolongamento inevitável do referido relatório.
Naturalmente, que cada colega terá a sua própria avaliação e opinião acerca
da situação hoje existente a nível do funcionamento dos Centros de Saúde. E
terá também diferentes perspectivas quanto às soluções a empreender.
No entanto,
e fruto da generalizada insatisfação profissional que é visível,
consideramos que ao fim de 24 anos de existência deste modelo de
funcionamento é impossível continuar tudo na mesma.
A
reorganização dos Centros de Saúde torna-se um processo incontornável,
restando saber se este processo se fará com os médicos e restantes
profissionais ou contra eles.
A criação de
Unidades de Saúde Familiar não constitui um dado novo, tendo em conta que já
em 1999 foram consagradas legalmente. A questão actual reside na metodologia
a ser adoptada.
No
essencial, consideramos que as USFs são, no
actual momento, uma solução credível para diversos problemas existentes.
Esta nossa
apreciação positiva reside nos seguintes aspectos:
Tratar-se de um processo
voluntário.
Conduzir a uma diluição da
hierarquia resultante das nomeações políticas.
Existência de um coordenador,
por livre escolha da equipa garantindo uma efectiva autonomia técnica e
científica dos médicos de família.
Combater a atomização e o
isolamento profissional dos médicos de família, possibilitando a agregação
funcional e a formação de equipas.
Maiores possibilidades de
autoresponsabilização e de
auto-organização.
Garantia plena da inserção na
carreira médica e da estabilidade laboral.
A obrigatoriedade de incluir
somente especialistas da medicina familiar na composição das unidades.
Não
obrigatoriedadade de progressão nos modelos apresentados.
Já em 1998,
a negociação e criação do Regime Remuneratório Experimental, teve da parte
da FNAM uma activa intervenção, tendo em conta os aspectos atrás referidos.
Para a FNAM,
a defesa das carreiras médicas, da sua estabilidade contratual e da sua
progressão salarial são matérias insusceptíveis de qualquer transigência
sindical.
Com todas as
limitações e imperfeições, as carreiras médicas tem demonstrado à evidência
que são um decisivo instrumento de garantia da qualidade da actividade
profissional dos médicos.
No actual
momento, e perante um contexto de mudança inevitável, consideramos que os
médicos têm de assumir uma intervenção activa na definição dos contornos
dessa mesma mudança.
A não
assumpção desta responsabilidade deixaria um amplo caminho aberto para que
interesses alheios aos médicos e fortemente penalizadores das suas justas
aspirações conseguissem concretizar os seus objectivos de
mercantilização integral dos Centros de Saúde.
A recente
experiência a nível de diversos países mostra, de forma clara e
indiscutível, que a ausência de uma avaliação rigorosa das possibilidades de
influenciação do processo de mudança tem-se
traduzido em resultados desastrosos para os interesses dos médicos e dos
restantes profissionais de saúde.
O nosso
apelo para que os médicos assumam uma activa intervenção parte do
pressuposto de que a influenciação da mudança
não pode estar confinada às organizações associativas.
Sabemos que,
no caso da saúde, a melhoria da prestação de cuidados implica mudar os
processos e os comportamentos das pessoas e das equipas. Para tal, existe a
necessidade de integrar tarefas, de coordenar actividades, de redefinir a
estrutura e a organização do trabalho e de tomar decisões estratégicas para
que os fluxos de valor mais crítico se aproximem, de forma mais eficaz, das
necessidades.
O trabalho
de equipa é crescentemente encarado como uma solução para impedir a
fragmentação dos cuidados de saúde, um meio para alargar as aptidões, uma
parte essencial da necessidade de considerar a complexidade dos cuidados de
saúde modernos e um caminho para a melhoria geral da qualidade para o
doente.
Ora, estas
questões implicam que só os médicos no seu desempenho profissional podem ser
os reais sustentáculos da mudança.
A FNAM, como
organização sindical médica, reitera o seu firme compromisso de não
transigir quanto à defesa das carreiras e aos direitos dos médicos.
Continuaremos a acompanhar atentamente todo o processo e a organizar
iniciativas de debate e de análise abertas a todos os colegas interessados.
Como em
qualquer processo desta importância, temos a noção de que o caminho tem
obstáculos, contradições e contrariedades.
Temos
naturais preocupações quanto à evolução do processo, mas assumimos, mais uma
vez, o desafio de desenvolver todos os esforços negociais e reivindicativos
para assegurar a defesa da carreira de clínica geral, o que inclui a
exigência da rápida inserção dos assistentes eventuais nesta mesma carreira.
Vilamoura, 10/03/2006
Mário Jorge Neves