O
Programa do GOVERNO para a SAÚDE: Que soluções?
Analisar o programa de
um governo constitui uma tarefa ingrata, tendo em conta que temos assistido, em
diversas ocasiões, a ministérios da saúde que não aplicam a maioria das medidas
aí contidas e adoptam outras, mais gravosas, que não foram explicitadas no seu
conteúdo.
Depois de 3 anos de uma
gestão ministerial desastrosa para os legítimos direitos da grande maioria dos
cidadãos e de um conjunto de medidas visando a destruição dos serviços públicos
de saúde e das carreiras profissionais, os resultados, das últimas eleições
legislativas conferem uma acrescida responsabilidade política e social ao actual
Governo.
Desde já, consideramos
importante que o Governo tenha decidido transpor para o seu programa as
propostas eleitorais relativas à saúde com que se apresentou aos portugueses.
Nesse sentido, importa
ter em conta que o Programa começa por considerar, e bem, a colocação da
centralidade do sistema no cidadão e a necessidade de uma gestão eficiente do
SNS.
Estamos, naturalmente,
perante um enunciado teórico, vago e impreciso quanto às medidas concretas que
serão tomadas para atingir estes objectivos. É em torno do conhecimento concreto
destas medidas que se pode avaliar, mesmo à luz da experiência internacional, se
estamos perante meras declarações de circunstância ou se existe uma clara
vontade política em romper com a anterior política governamental.
Todos temos bem
presente, que o anterior ministro da saúde tentou sempre apresentar as suas
medidas de destruição do direito constitucional à saúde como se viessem ao
encontro dos interesses dos cidadãos e usou e abusou dos chavões económicos como
a eficiência para justificar medidas como os hospitais SA ou a política de
privatização dos centros de saúde.
Quanto aos vários
aspectos concretos contidos no Programa, importa transmitir as seguintes
apreciações:
-
A prioridade dada à
questão da promoção e protecção da saúde é um elemento positivo, tanto mais
que é definida a simultaneadade da responsabilidade pública e individual.
Esta abordagem, ainda
que teórica, distingue-se das práticas em moda nalgumas políticas privatizadoras
noutros países que estabelecem unicamente a responsabilidade individual nesta
matéria, sancionando a completa demissão da responsabilidade social do Estado e
dos seus serviços públicos de saúde.
-
Relativamente ao
Plano Nacional de Saúde, o enunciado é muito genérico, embora consideremos
positiva a referência a algumas medidas com vista a aumentar a adesão às
profissões envolvidas na Saúde Pública e respectivas carreiras. No entanto,
consideramos deslocado neste ponto o desenvolvimento dado aos aspectos da
Saúde Pública que deveriam ser objecto de tratamento específico.
-
A questão de uma
política de envelhecimento saudável constitui hoje uma matéria delicada e de
grande importância social e económica.
O aumento da esperança
de vida, que é resultado dos avanços civilizacionais e das políticas sociais,
tem conduzido, naturalmente, ao aumento da população idosa, com a tendência para
uma maior solicitação na prestação de cuidados de saúde.
Por outro lado, as
diversas transformações que a estrutura familiar tem sofrido nas últimas décadas
explica, em grande medida, o número crescente de idosos que vivem isolados.
Estamos perante um
problema de grande dimensão, e disso temos plena consciência, que exige uma
clara ampliação de esforços.
Nesse sentido,
consideramos que uma das medidas que deveria ser equacionada, e está ausente no
Programa, era a criação de redes informais de entreajuda, complementares dos
outros serviços de proximidade, tendo em conta a experiência existente em alguns
países europeus.
Importa ainda
considerar, que o número muito limitado de serviços de cuidados continuados hoje
existente, poderá traduzir-se num obstáculo importante ao desenvolvimento desta
abordagem multi-institucional, bem como o défice de médicos de família e de
enfermeiros nos Centros de Saúde.
Sem recursos
profissionais qualificados em número suficiente, não será possível assegurar a
viabilidade de uma política estruturada e articulada nesta área.
Somente continuarão a
existir empenhados exemplos pontuais.
4.
Quanto às
toxicodependências e SIDA, consideramos que as medidas enunciadas pecam por
falta de objectivação quantificada e temporalizada, não existindo referências
quanto à indispensável integração entre elas. A não ser a garantia de que as
estratégias de prevenção do álcool, tabagismo e SIDA se articularão, de modo
transversal, a alto nível.
5.
Os
Cuidados de Saúde Primários constituem, sem dúvida, “o pilar central do sistema
de saúde”, tal como é afirmado no Programa.
Mas existe neste aspecto
alguma confusão no texto entre cuidados de saúde primários e centros de saúde,
limitando-se a reconfigurar estas unidades em Unidades de Saúde Familiar (USF).
Embora consideremos de
fundamental importância o desenvolvimento das Unidades de Saúde Familiar, a
actividade global dos Centros de Saúde está muito para além disso, nomeadamente
as múltiplas actividades no âmbito da Saúde Pública.
As posições da FNAM
sobre esta matéria são, há muito, conhecidas e vão no sentido de concordar com a
criação das USF e uma rápida ampliação do Regime Remuneratório Experimental em
função das candidaturas apresentadas.
No entanto, consideramos
como factor negativo que o Programa não tenha assumido o propósito de passar a
definitivo este regime experimental. Esta medida traduzir-se-ia em maior
estabilidade de desempenho dos grupos de médicos já em actividade e
possibilitaria uma maior capacidade de atracção a novas candidaturas.
Mas o aspecto mais
relevante deste ponto do Programa é o compromisso inequívoco em revogar o D.L.
n.º 60/2003.
Importa lembrar, que
este diploma, da responsabilidade do anterior ministro da saúde, suscitou uma
generalizada contestação e resultou de um processo sem qualquer transparência
política e sem qualquer participação, como exige a legislação, das várias
organizações sindicais.
Além disso, o seu
conteúdo tinha como objectivo fundamental a privatização dos Centros de Saúde e
a sua colonização por profissionais indiferenciados e clientelas partidárias
rotuladas de gestores.
A elaboração assumida de
um novo diploma deve ter bem presente, que se torna indispensável desenvolver
empenhados esforços em encontrar soluções sustentadas e participadas, na
perspectiva de impedir que este sector se transforme, de novo, num palco de
conflitualidade quando urge criar consensos.
No que se refere à mera
afirmação de reforçar os incentivos e a formação dos médicos de família,
atraindo jovens candidatos, entendemos que a gravidade da situação deficitária
dos Centros de Saúde em médicos e enfermeiros exigia uma formulação mais
definida e desenvolvida.
A nível dos médicos,
consideramos que se impõe o rápido desenvolvimento de um quadro de vagas nas
zonas carenciadas que possibilitem a aquisição de vínculo profissional na
carreira, bem como uma maior atribuição de vagas no exame de acesso ao internato
médico.
Estas medidas devem ser
igualmente aplicadas à carreira de Saúde Pública, onde existe uma acentuada
escassez de efectivos e uma consequente situação de progressivo esvaziamento da
sua capacidade de intervenção.
Quanto à acessibilidade,
pressupõe-se que a referência ao estímulo do contacto directo
paciente-profissional por correio electrónico tem por base a disposição
ministerial em efectuar adequados investimentos na dotação dos centros de saúde
em material informático.
É que, de acordo com um
estudo de uma entidade académica divulgado o ano passado, a esmagadora maioria
dos Centros de Saúde não dispõe de recursos electrónicos para assegurar este
objectivo.
6. Sobre os
hospitais, a linha central de intervenção assenta na chamada empresarialização
em torno das chamadas entidades públicas empresariais (EPE), a aplicar quer aos
SA quer aos restantes hospitais.
O compromisso de “operar
a transformação” dos actuais hospitais SA em EPE , como se isso significasse uma
ruptura com uma determinada orientação política de alienação dos hospitais
públicos, ficou esclarecido durante a campanha eleitoral quando o agora Ministro
da Saúde afirmou publicamente que “empresarializar em SA ou EPE é rigorosamente
a mesma coisa”.
Então, com que
objectivos é assumido este compromisso? Para mistificar junto da opinião pública
o prosseguimento, no essencial, da mesma política?
Consideramos inaceitável
que a empresarialização seja erigida como suposta solução para os chamados
problemas de efectividade e eficiência, sem sequer ser esboçada qualquer
possibilidade de apresentação de propostas com vista à modernização da gestão
pública dos serviços de saúde
Como também se torna
incompreensível que não exista uma única referência à criação de centros de
responsabilidade integrados, quando as suas potencialidades se encontram bem
testadas num dos serviços de um hospital central.
7. A qualidade em saúde,
sendo uma das dimensões mais complexas da gestão e onde a concertação é mais
exigente, seria de esperar que o Programa fosse mais rigoroso no enunciado das
medidas que se propõe tomar nestes 4 anos de mandato.
Justificava-se que para
cada dimensão da qualidade nele identificada, se procedesse à fixação de prazos
e ao modo como o processo de mudança se irá verificar.
8. O lacónico
conteúdo do ponto relativo aos recursos humanos não é compreensível para um
Programa governamental que se apresentou para desenvolver um processo de
mudança.
Os recursos humanos são
sempre um factor crítico das reformas e dos processos de mudança, e sem uma
adequada política de abordagem dos problemas as eles inerentes não é possível
garantir a viabilização de quaisquer medidas de fundo.
Nada é dito sobre as
carreiras profissionais limitando-se a uma generalidade como “o envolvimento dos
profissionais na política do sector é essencial para garantir resultados”.
Sendo inquestionável a
impossibilidade de aplicação de uma política de saúde e de um plano nacional de
saúde sem profissionais habilitados e qualificados, bem distribuídos, em
quantidade suficiente, com remunerações dignas e motivados, não é admissível que
o Programa tenha dedicado suas linhas a este assunto fundamental.
9. O ponto
relativo às “finanças públicas” retoma alguns raciocínios conhecidos sobre o SNS
considerando-o pesado, pouco ágil, relutante à inovação, presa fácil de
interesses particulares e gastador sem controlo, como se ele fosse uma entidade
abstracta sem estar na dependência directa dos sucessivos ministros e imune a
diversas políticas desastrosas cujo objectivo final tem sido a sua
desarticulação e descrédito.
E depois
destas referências é apresentada como solução a conhecida “separação entre
financiador e prestador”, que tem constituído o princípio nuclear no
desencadeamento das políticas privatizadoras neoliberais.
Com este princípio como
pano de fundo das finanças públicas, a enunciação posterior da progressiva
criação de condições para a rigorosa separação dos 3 sectores fica claramente
comprometida, dadas as inevitáveis consequências preocupantes de “desnatação” do
SNS.
A afirmação do pagamento
de serviços de forma contratualizada e a sua avaliação por critérios
prioritários a nível qualitativo é um factor positivo, até tendo em conta que a
dimensão da qualidade está ausente da tabela de preços de pagamentos aos
hospitais SA aprovada pelo anterior ministro.
10. A Entidade
Reguladora da Saúde surge com a sua adaptação às funções de regulação da
concorrência, e na delegação da prestação são referidos os hospitais SA.
Então, se os hospitais
SA vão passar a EPE porque razão são objecto de referência?
Não podemos deixar de
manifestar a nossa perplexidade por esta aparente gralha.
A regulação da
concorrência é, como todos sabemos, um pressuposto tendente à integral
liberalização de um sector de actividade, com a consequente alienação do papel
social dos serviços públicos.
11. No que diz
respeito aos medicamentos existem no texto algumas medidas que, em termos
genéricos, se podem considerar positivas. No entanto, a questão essencial da
propriedade das farmácias não é objecto de qualquer abordagem.
12.O último
ponto, que se refere à regionalização, participação e responsabilidade social,
possui várias medidas que consideramos com um alcance positivo.
As práticas de
contratualização e a reconstituição das agências de contratualização são, em
nossa opinião, medidas positivas, bem o aspecto inovador destas agências
assumirem a nível regional as funções do IGIF.
A referência à
“reactivação” do Conselho Nacional de Saúde constitui, inevitavelmente, uma
gralha, dado que este órgão fundamental de participação nunca foi constituído,
embora esteja legalmente consagrado acerca de 25 anos.
Independentemente deste
aspecto, esta medida merece a nossa total concordância e, se devidamente
implementada, pode constituir um elemento facilitador na procura de soluções com
que se defronta o sector.
Colocadas estas
questões, a nossa apreciação global é que estamos perante um Programa contendo
diversas medidas contraditórias, sem articulação coerente entre elas e com pouca
ambição inovadora.
Aproveitamos para
reafirmar a nossa posição de princípio quanto à disponibilidade de participação
activa na procura de soluções credíveis, apoiando as medidas positivas que
vierem a ser implementadas e nunca abdicando de exercer o legítimo exercício da
critica e oposição às medidas consideradas nefastas para a indispensável
revitalização e redinamização do SNS e das carreiras médicas.
Fazemos sinceros votos
para que a actual equipa ministerial tenha já retirado as devidas ilações da
gestão do anterior ministério e se disponha a encetar um caminho novo no
relacionamento com os parceiros sociais do sector.
Da nossa parte,
desenvolveremos empenhados esforços para que o diálogo e a negociação sejam o
padrão de relacionamento institucional possibilitador das soluções que os
problemas exigem.