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MÉDICOS DOS CENTROS DE SAÚDE DEVOLVEM CARTA DO MINISTRO DA SAÚDE

 

1 - Os médicos em exercício nos Centros de Saúde começaram ontem a receber nas suas residências uma carta assinada pelo Sr. Ministro da Saúde, destinada a esclarecer (??!!) alguns aspectos decorrentes da aplicação do DL que se encontra a aguardar promulgação, sob o pretexto de "na impossibilidade de falar com cada um dos profissionais médicos" se ver na necessidade de recorrer a este meio de comunicação.

Pensávamos que este tipo de métodos pertencessem a um passado mais consentâneo com uma incipiente cultura democrática, senão mesmo a sua ausência.

Dispensamo-nos sequer a contra-argumentar o seu conteúdo. Há meses que o fazemos de uma forma consistente e fundamentada, avançando propostas e correcções.

O que verdadeiramente nos choca é a postura autista, demagógica e absolutamente inconsequente de um ministro que inviabilizou o diálogo, rejeitou a negociação com as estruturas representativas e constitucionalmente reconhecidas, ignorou a postura e disponibilidade construtiva das mesmas, desprezou a experiência acumulada, e não foi capaz de promover uma reflexão serena e fundamentada com vista à reforma que todos admitem necessária.

O que é verdadeiramente chocante é esta persistência do Sr. Ministro de Saúde em insistir na "comunicação" num só sentido. O Sr. Ministro quer ser ouvido mas não tem disponibilidade para ouvir. Não ouve os profissionais de saúde, não ouve os cidadãos que aqui e ali vão fazendo ouvir as suas opiniões, não ouve recomendações de insuspeitos e reconhecidos fóruns internacionais, não ouve sequer as vozes de personalidades de referência nas políticas de saúde, algumas delas oriundas das áreas políticas que suportam o governo a que pertence.

A carta endossada pelo Sr. Ministro da Saúde aos médicos de família portugueses constitui pois, no presente contexto, uma afronta intolerável.

Por estes motivos a FNAM apela que à mesma seja dada a resposta compatível. A sua imediata DEVOLUÇÃO ao Ministério.

2 - A CN de MGF da FNAM defende que uma nova greve deve ser evitada, pelos inevitáveis prejuízos que aos cidadãos causa. E é possível, desde que o Sr Ministro da Saúde e o Governo abram finalmente o processo negocial, indispensável, tendo em consideração a imposição legal e constitucional de as organizações representativas participarem na definição das mudanças e a necessidade de fazer participar nas mesmas a opinião pública e a sociedade portuguesas.

O que está em causa é suficientemente importante e substancial para a sociedade e o povo português, de forma que este deve participar nas alterações a fazer, não permitindo que seja unilateralmente destruído pelo Sr Ministro.

O Decreto-Lei enviado a Sua Exª. o Senhor Presidente da República para promulgação, só interessa e só defende interesses muito minoritários no nosso país, que elegem a saúde como um grande negócio para o século XXI.

Os médicos continuam a defender interesses essenciais e comuns à grande maioria dos portugueses.

3 - Não nos seduz Sr. Ministro !

O Sr. Ministro da Saúde suspendeu o discurso, que tentou explorar sentimentos justos de descontentamento de portugueses, para agora procurar ludibriar os médicos, passando a um discurso abstracto e oco, fugindo à contestação concreta, rigorosa e bem fundamentada, em que os médicos alicerçam as razões para se oporem ao seu Decreto.

Mas não esqueçamos, a realidade era e é:

A marcação de consultas pelo telefone é desde há muito uma realidade.

As filas nos Centros de Saúde às seis da manhã não são de forma alguma generalizáveis e onde existem, são por vezes, falta de competência das chefias, e na maioria dos casos, devido à falta de recursos humanos indispensáveis e à gestão desastrosa dos mesmos.

A generalidade dos Centros de Saúde tem resposta para as solicitações dos utentes no próprio dia, e com consulta se a situação o justificar. 

Dar um médico de família a cada português é possível e interessa em primeiro lugar a esses utentes e em segundo lugar aos próprios médicos, que são quem lhes assegura e é sobrecarregado com as poucas consultas de que dispõem.

4 - Contrariamente ao que o Sr. Ministro afirma, o seu decreto–lei não tem como objectivo responder a problemas reais dos portugueses, a carências e a ineficiências existentes nos Centros de Saúde.

Ou então explique o que pretende com:

    • listas até 2500 utentes por médico nas outras formas de gestão;
    • listas entregues a médicos indiferenciados ou com especialidades diferentes da medicina geral e familiar;
    • generalização de contratos individuais de trabalho;
    • impedimento da contratação colectiva;
    • directores não médicos ou médicos em início de carreira, com poderes para dar orientações técnicas;
    • a classificação como "ineficaz" do sistema de saúde actual, quando a avaliação da OMS o classifica como o 12º mais eficaz.

5 - O Sr. Ministro tem salientado até à exaustão que "nenhum dos parceiros foi capaz de dar alternativas". Os sindicatos da FNAM têm feito críticas ao modo como tem sido gerida a política dos CS e fizeram propostas concretas para melhorar a gestão dos CS e garantir maior acessibilidade e qualidade dos cuidados, senão vejamos, em resumo o que deveria acontecer:

  • Criar incentivos especiais aos jovens médicos ex. provimento desde o início do internato) para que a 1.ª escolha de carreira seja, para a maioria deles, a carreira de médico de família, tentando inverter a proporção de 3,3 médicos hospitalares para 1 MF.
  • Dar aos centros de saúde capacidades para uma verdadeira autonomia de gestão (administrativa e financeira),para que possam dotar-se rapidamente dos meios técnicos e humanos adequados ao seu bom funcionamento.
  • Melhorar a organização dos centros de saúde, com pequenas equipas de vários profissionais, as Unidades de Saúde Familiar (médicos de família, enfermeiros, técnicos do serviço social, psicólogos, nutricionistas, dentistas e higienistas orais, fisioterapeutas, entre outros). Deste modo, o trabalho não recairia apenas no médico de família e este teria mais tempo para fazer o trabalho que lhe compete, podendo cuidar de mais doentes e com mais qualidade.
  • Instituir direcções técnicas/clínicas nos centros de saúde, com atribuições de garantir a Qualidade dos cuidados de saúde prestados.
  • Permitir que o centro de saúde possa ter melhores instalações e que possa executar análises, radiografias, electrocardiogramas e tratamentos de fisioterapia, para melhorar a qualidade do atendimento e diminuir as deslocações e o sofrimento a que os doentes estão sujeitos.
  • Permitir que os Portugueses possam ter a sua consulta de Pediatria, Oftalmologia, Cardiologia, Ginecologia, Obstetrícia, Dermatologia, Psiquiatria, etc. nos Centros de Saúde, evitando longas e demoradas deslocações.

Os médicos estão na disposição de continuar a defender com firmeza as fortes razões que os obrigaram a recorrer à greve.

Caso o diploma venha a ser promulgado pelo P.R., iremos solicitar formalmente a sua inconstitucionalidade e desencadear múltiplas acções de resistência à sua aplicação.

Coimbra, 21 de Fevereiro de 2003
Comissão Nacional de MGF da FNAM
Presidente da FNAM
(Cílio Pereira Correia,Dr)

 
 

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