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COMUNICADO

A Política escandalosa do Ministério da Saúde

O Conselho Nacional da FNAM, reunido em Coimbra, analisou a actual situação no sector da saúde e aprovou as seguintes conclusões:

  1. A evolução da acção política do Ministério da Saúde está a confirmar plenamente as denúncias que a FNAM tem vindo a fazer quanto aos seus verdadeiros objectivos. Torna-se cada vez mais claro, que toda a sua política está subordinada ao objectivo central de privatizar os serviços públicos de saúde e de proceder à sua entrega a vários grupos económicos, cumprindo na integra as orientações da Organização Mundial do Comércio de que " a saúde é um bem de consumo".
  2. O Ministro da Saúde afirmou já publicamente a sua inspiração no modelo britânico de privatização, o que facilmente se pode comprovar pela prática legislativa em curso.

  3. O Ministro da Saúde, fazendo da demagogia política o seu padrão fundamental de intervenção, tem efectuado múltiplas declarações públicas negando quaisquer propósitos privatizadores e de desorçamentação dos gastos na saúde, quando se torna evidente que estamos perante uma conhecida manobra contabilística visando o cumprimento artificial dos limites da dívida pública impostos pela U.E..
  4. Por outro lado, é curioso verificar a total coincidência de posições do Ministro da Saúde e de um dos principais administradores do grupo económico seu ex-patrão, através das profusas entrevistas deste último.

    Ainda recentemente, este administrador veio publicamente defender a criação de uma estrutura oficial de fiscalização e acompanhamento dos novos hospitais e duas semanas depois o Ministro da Saúde anunciou a sua decisão de a constituir.

    Igualmente elucidativa, é a decisão do Ministro da Saúde em contratar a empresa multinacional de consultores Pricewaterhouse, anunciada num recente debate na Assembleia da República.

    Esta empresa é a que possui maior número de projectos de privatização na Grã-Bretanha e há cerca de 2 anos definia-se a si própria como "leader do mercado em project finance (P.F.I.) e privatizações", vangloriando-se ainda que "procedeu a mais privatizações do que qualquer outro consultor financeiro, desde o da indústria do aço aos transportes públicos, saúde e educação".

  5. A nomeação de um gestor para Ministro da Saúde foi apresentada como a necessidade de conferir a este sector uma gestão criteriosa e competente, que permitisse evitar os constantes défices orçamentais.
  6. Segundo diversas notícias publicadas, após 9 meses de exercício de funções ministeriais, a "derrapagem" orçamental terá atingido um novo recorde.

    No que se refere à recuperação das listas de espera, apresentada como uma das prioridades deste ministério, todos os dados referidos em notícias apontam para o facto de se tratar do período em que foram efectuadas menos intervenções cirúrgicas.

    Deste modo, a actuação do actual Ministro da Saúde constitui o exemplo mais desastroso no desempenho desta pasta governamental, onde só o desenvolvimento acelerado do processo privatizador a favor de grupos económicos suscita a sua atenção e empenho políticos.

  7. A criação de "hospitais S.A." e a legislação sobre os centros de saúde, são duas medidas estreitamente articuladas com vista à integral privatização dos serviços públicos de saúde.
  8. A recente nomeação ministerial das administrações dos "hospitais S.A." com o recurso, na esmagadora maioria dos casos, a pessoas sem qualquer conhecimento do sector da saúde, indicia que se trata de orgãos transitórios até à posterior entrega definitiva destas unidades hospitalares a grupos privados, através da sucessiva alienação do respectivo capital social como já aconteceu com diversas grandes empresas públicas do nosso país.

    De tal forma assim é, que a criação dos "hospitais S.A." foi politicamente justificada como o mecanismo de garantia de um desempenho mais eficiente destas unidades e paradoxalmente foram escolhidos gestores sem qualquer formação nesta área.

    Reconhecendo a total falta de preparação destes "gestores", adequada à gestão de uma unidade de saúde, o Ministério da Saúde irá fazer 4 semanas de formação intensiva, como se isso habilitasse alguém para funções de tamanha responsabilidade.

    Acresce o facto que estes "gestores" irão auferir vencimentos substancialmente mais elevados que os actualmente praticados, sendo oportuna a nomeação que se verifica dos amigos políticos para tais cargos.

    Com gestores sem conhecimento e formação específica em gestão de unidades hospitalares, quais os resultados previsíveis do seu desempenho?

    A resposta parece-nos demasiado óbvia.

    Quanto aos centros de saúde, o diploma aprovado em Conselho de Ministros visa substituir os médicos especialistas em medicina geral e familiar e substituí-los por médicos indiferenciados e sem formação especializada, no quadro da sua entrega á exploração por grupos privados.

    Neste diploma estão previstos mais de 1000 lugares de nomeação política com ordenados muito substancialmente superiores aos actuais.

    É um verdadeiro escândalo nacional, quando é apregoada uma política de contenção orçamental.

  9. À semelhança do que acontece em países como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, estas medidas privatizadoras irão ter, a curto e médio prazo, consequências gravíssimas para os cidadãos portugueses. O acesso aos cuidados de saúde irá depender da capacidade económica de cada cidadão e da possibilidade em adquirir seguros privados.
  10. Esta é uma conclusão objectiva, sem qualquer base especulativa, que se encontra amplamente fundamentada na dramática experiência dos países que optaram por esta via de políticas anti-sociais.

  11. A recente divulgação das medidas em preparação para anular as progressões e promoções nas carreiras profissionais da Administração Pública constitui mais um exemplo de desrespeito pelos direitos destes trabalhadores consagrados na lei.

Chorudos salários para "os comissários políticos", negócios lucrativos com privatizações para os grupos económicos e uma política esclavagista para quem vive do seu salário por conta de outrém.

Na actual e tão difundida lógica governamental " do utilizador- pagador ", não é difícil prever que estarão para breve as medidas de pagamento directo dos cuidados de saúde, além da carga fiscal anual.

A FNAM reafirma o seu total empenhamento em adoptar as adequadas formas de luta contra esta política governamental, bem como em contribuir activamente para a

concretização de plataformas de unidade e convergência no seio dos médicos e outros grupos profissionais da Administração Pública.

Coimbra, 13 /01/2003

O Conselho Nacional

 

 
 

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Revista dos Médicos - Jan-Set/03
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